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03 julho 2006
02 julho 2006
Mundo se decepciona: "Brasil, órfão de jogo bonito"
Os jornais espanhóis não perdoaram a proposta burocrática da equipe de Parreira em buscar apenas o futebol de resultado. O diário Marca destaca que "a França elimina um Brasil órfão de jogo bonito".
O compatriota As se mostra mais ácido e diz que a "mentira brasileira foi desmascarada" e vai embora do Mundial sem mostrar o que a Argentina mostrou em qualidade, como a goleada frente a Sérvia e Montenegro por 6 a 0. Além disso, afirma que o "Rei" Zidane levou sua equipe à vitória, como em 98
Na última Copa do século XX, Zidane fez dois gols na final contra o Brasil, que era o grande favorito - como nesta Copa - e acabou derrotado por 3 a 0 pelos anfitriões.
No país vizinho, a derrota de seus maiores rivais serviu de banquete para que os argentinos pudessem aliviar a dor da desclassificação da seleção do país, um dia antes para a Alemanha, depois de empate por 1 a 1 no tempo regulamentar e de derrota nos pênaltis.
O Olé, conhecido por suas provocações aos brasileiros, escancarou neste domingo e escreve na capa do jornal: "Merdeamarela". Em seguida, ironiza e diz que os brasileiros se enganaram ao pensar que tinham apóio do jornal.
"Confiantes e ingênuos, os brasileiros pensavam que iriam levar o hexa, sem jogar e com apoio do Olé. Mas, por favor. França os tirou do Mundial com um baile. Vergonha, isso foi uma vergonha, um papelão histórico".
Não satisfeito, o diário afirma que os argentinos, com o coração partido, não precisaram de aspirinas, nem remédios. O vizinho foi farmacêutico e nos tinham um santo remédio chamado "Adeus Penta".
Agora, pela Copa, a França faz uma das semifinais contra outro brasileiro: o técnico de Portugal, Luis Felipe Scolari, no dia 05 de julho, às 16h, no Allianz Arena, em Munique.
E a imprensa lusitana se mostra preocupada com a adversária, a qual venceu seus últimos sete confrontos contra os portugueses, sendo a última ocorrida há 31 anos, segundo o jornal Record , que define a França como: "o lado negro da força".
Também na Europa, o jornal inglês Guardian diz que o Brasil permanece único na história das copas do mundo, por ser pentacampeão e único time sul-americano a vencer um Mundial na Europa, em 58 na Suécia. Apesar da lembrança, o diário diz que os brasileiros foram nocauteados por uma França que sempre se impôs na partida de igual para igual.
Com motivos de sobra para comemorar, os jornais franceses encharcaram suas páginas com a vitória do time do técnico Domenech. O L'Equipe diz que o time de seu país fez uma partida excepcional, com uma atuação de ouro do triângulo Zidane-Vieira-Makelele.
O L'equipe afirma que os campeões do mundo foram vencidos psicologicamente e tecnicamente pelos homens de azul.
Pelo lado da Itália, o La Gazzeta dello Sport diz que "a ressurreição de Thierry Henry dá à excelente França o adversário de Portugal" e que o resultado foi um "veredicto incontestável".
O compatriota La Repubblica destaca que o capitão do time da França se confirma como o melhor de seu time, seleção que desclassificou os nunca-perigosos brasileiros.
Já pelo lado do país anfitrião da Copa, o Bild comemorou o fato de o time de Viera ter avançado: "Vive la France!". O diário defende que Zidane foi muito forte para o Brasil, como em 98.
O também alemão Die Welt.de afirma que a França chutou para longe o detentor do título mundial, o Brasil, dizendo que o "Golden Gate" da vitória na Copa da França, Zidane, deu o passe para a conclusão perfeita de Henry.
01/07: Somos Dionísio
GUSTVO ALMEIDA (JB ONLINE)
A cidade ficou triste, é fato. Mas acredito que a pouca tristeza que há pelas ruas é mais pela festa que não aconteceu, pela cerveja não bebida, pelos beijos não dados, do que por esta seleção tão sem identificação com o povo brasileiro, tão pouco representativa em seu modo de ser, de agir, de ver a vida. A festa seria bonita - mas não foi porque a Justiça foi feita pelos pés de um gênio que não treme na hora de decidir, o tal Zidane. Que se dane a Pátria - é o que parece me dizer o Roberto Carlos, amarrando as chuteiras na hora do golaço de Thierry Henry, gol este que selou a partida de vez - era nítido que o Brasil não conseguiria o empate. Zidane mandou no jogo.
Por mais que as lágrimas existam, há coisas que foram derrotadas junto com esta seleção pelas quais a gente nunca torceu. Certas concepções e estereótipos são estranhos ao brasileiro, daí a total capacidade de a gente se adaptar à idéia de "ganhar jogando feio".
Uma idéia que era propagada pelo técnico Carlos Alberto Parreira o tempo todo, como se fosse a única alternativa, a de ganhar jogando mal. Ora, como assim? Por que vincular um conceito ao outro?
A briga destes modos de ver a vida tem a ver com as questões do Apolínio/Dionisíaco - e aqui não estamos dando uma de intelectual de botequim. O brasileiro tem sangue quente, o trópico nos alucina. Não queremos a vida certinha e regular. Amamos o mata-mata, o drama, a tragédia com apogeu e fim, a lágrima e a emoção da vitória ou da derrota - daí a nossa resistência aos pontos corridos, mesmo diante do argumento de que "premiam o time mais regular". Ora, de "regular" já basta a nossa rotina: acordar, pegar um ônibus, ir ao trabalho, levar bronca do patrão, almoçar no restaurante a quilo, tomar café, ir embora, pegar engarrafamento e de 12 em 12 meses pleitear férias que serão parecidas com as do ano passado.
Esta é a vida ordinária - na acepção pura da palavra, no sentido de ordem, de monotonia. Quando buscamos o esporte, o futebol, a paixão, é só para satisfazer nosso desejo do imponderável, do imprevisível. Somos Dionísio, Baco, fervemos no vinho e no sangue. Não queremos levar para um campo de futebol ou a tabela do campeonato a monotonia do ônibus no engarrafamento ou do salário no dia 5. Como me disse certa vez o Marcelo Yuka, ex- Rappa: "O drible às vezes vale mais que um gol", referindo-se a Júlio César, ponta-esquerda do Flamengo nos anos 80.
Parreira disseminava a repulsa ao risco de jogar bonito, de jogar dionísio. E representava esta maneira de ver a vida. Tanto é que jogamos feio e agora não temos nada - ora, foram cinco jogos péssimos. Tirando, claro, parte do jogo contra o Japão, não houve mais nada que valesse a pena. Valeu a pena ouvir tantas vezes o discurso de que jogar bonito não basta para entrar para a história, é preciso ser campeão? Pois bem, jogamos feio e fizemos história. Mas com h minúsculo.
E se Ronaldinho Gaúcho tivesse feito firulas, Ronaldo Fenômeno marcasse diversos gols, Robinho pedalasse mas MESMO ASSIM o Brasil ficasse fora?
A diferença é esta: as lágrimas seriam, sem dúvida, muito maiores. Porque amamos o risco, tudo aquilo que nos faz esquecer da vida normal, sem cheiro nem sabor. Apolo é para os bretões, alemães, talvez suecos - opa, italianos, franceses e portugueses estão fora disso. Estas semifinais serão sintomáticas quanto a isso: se verá grande sofrimento nos respectivos países que forem eliminados - já se a empolgadíssima Alemanha perder, o máximo que se ouvirá serão alguns PQPs em germânico e olhe lá. Nenhum deles se comparando às nossas tragédias, ao nosso 1982, ao nosso 1986 - ao nosso 1950. Sempre que perdemos, desviamos um pouco o curso de nossa história - e é isto o que talvez mais nos faça brasileiros. E também o que mais faz desta seleção estrangeira - sua derrota não alterará nem a macarronada de domingo do brasileiro.
Acabou a Copa do oba-oba, do cantar vitória, da "geração que superaria a de Pelé" e de tantas outras firulas que inventaram. Acabou a Copa em que, de 10 comerciais na TV, 7 tinham jogadores da Seleção Brasileira. Acabou a Copa em que se tentou proibir a crítica (algo quase tão secular quanto a prostituição) de dizer que quem estava mal estava mal. Não havia ninguém mal, havia apenas "recordistas". Acabou a Copa da Legião Estrangeira, da Seleção dos tempos modernos - a seleção que não tem o Júnior do Flamengo, o Roberto Dinamite do Vasco, o Rivellino do Fluminense, o Sócrates do Corinthians, o Careca do São Paulo. Aquela seleção com a qual esbarrávamos na esquina da Domingos Ferreira com a Siqueira Campos. Hoje, pessoal, a vida é outra - somos torcedores-visitantes, não estamos mais tão em casa. Dizer que "a Seleção Brasileira vai voltar para casa" pode apenas significar que os caras vão pegar um trem. Não é patrulhamento "financeiro", já que houve seleções de jogadores ricos e que nem por isso deixavam de ter raça. Mas apenas uma constatação: nossas lágrimas precisam ser mais caras, pelo menos a metade do preço dos nossos jogadores. Somos Dionísio, bebemos vinho, queremos dar nosso sangue, mas estamos longe demais de Frankfurt. É pena.
30 junho 2006
ESCADAS
ESCADAS
O que seria de nós sem elas.
Tudo bem que o elevador é um equipamento do qual o invento foi um marco não só para a indústria da construção civíl, mas também para o mundo dos negócios. Imaginem só o que seriam dos grandes predios empresariais sem essa engenhoca que passa o dia todo subindo e descendo carregando pessoas, objetos e animais até onde o limite técnico do ser humano permite.
Porém, não devemos esquecer que antes dessa nobre invenção, as escadas foram o principal meio de transporte vertical utilizado.
Desde a Era Egípcia por volta de 2780 a.C, as pirâmides Miquerinos, Quéops e Quefren foram erguidas à força humana com o uso de enormes pedras encaixadas umas nas outras. Para se ter uma idéia, a maior delas é a Quéops que pesa cerca de 6 milhões de toneladas e foi montada sem ajuda de qualquer tipo de máquina. Já nesse tempo os homens se preocuparam em fazer com que a tarefa de chegar até a entrada desse gigantesco túmulo - pois as pirâmides era construídas para abrigar o corpo dos imperadores egípcios mortos - fosse, para os padrôes da época, algo que se realizasse com certa facilidade. O acesso a parte interna desse monumento fica mais ou menos na metade da altura do mesmo, 69 metros acima do chão. Com isso, planejaram a disposição das pedras que compõem as pirâmides, de forma que na parede exterior da mesma se formassem escadas as quais dariam acesso à entrada. Devemos considerar que os degraus não passuiam a mesma uniformidade das escada nas quais pisamos hoje, porém não é qualque pessoa que sabe descrever como um povo de conhecimento tão retórico pôde planejar e executar algo tão complexo.
Se analisarmos, não só as pirâmides do Egito são dotadas de grandes escadas. Os Castelos da Normandia entre outros castelos que possuem grandes escadarias, e temos também um exemplo muito popular que é a Escadaria da Igreja de Nossa Senhora da Penha. A mesma originou-se de uma capela construía no alto de um penhasco, que ficava nas terras de seismaria de Baltazar de Abreu Cardoso e hoje essa região se denomina por Bairro da Penha, situada no Rio de Janeiro. Com a fundação da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Penha em 1728, foi cavado na rocha uma escada para facilitar o acesso dos fiéis. E já no século 20, mais precisamente em 1913 essa escada foi ampliada passando a ser constituída por 365 degraus, número este que continua até os dias de hoje. Com isso, a igreja tornou-se lugar de peregrinação e uma grande quantidade de devotos sobem essa escadaria de joelhos para pagar suas promessas. Ou seja, as escadas muitas vezes além de serem usadas como um meio de deslocamento vertical são utilizadas para outros fins.
Rafael Rente Martins
Uploaded by r a f a e l r e n t e on 8 May '06, 11.58am PDT.
TELEVISÃO
Rafael Gomes (JB online)
Termino de assistir à segunda temporada de Lost, série de televisão que virou sensação planetária. Como muitos outros antes dele, e prova da dominação que o meio televisivo, em termos de alcance, ainda impõe sobre os demais, o seriado extravasou as simples esferas do programa de tv e tornou-se fenômeno pop, assunto de conversas e parte irremovível da vida das pessoas.
Comparar fatos do cotidiano com as agruras dos sobreviventes fictícios ou mesmo relacionar características psicológicas e comportamentais de amigos e conhecidos a de determinado personagem lostiano virou coisa comum. Eu faço e aposto que você - espectador assíduo que fica com medo de levantar da frente da tv para ir ao banheiro cada vez que um episódio termina com aquele som e aquele suspense característicos e aflitivos – também faz.
Em edição recente, a revista norte-americana Entertainment Weekly, bíblia do showbizz, vaticinou, alegando o crescente interesse do público e a qualidade dos programas exibidos: TV Is King!.
Em edição de domingo passado de um jornal de grande circulação no Brasil, Silvio de Abreu, autor da telenovela Belíssima, disse com todas as letras e assertividade que a televisão, para nós, era muito mais importante do que o cinema.
Discussões (complexas) à parte, fato é que Lost possui seus defeitos, mas mesmo eles são tão bem embalados para consumo que passam a ser não só palatáveis como também parte indissociável de um todo bastante coeso. A dramaturgia é esquemática, mas espertamente pensada para funcionar como folhetim. As viradas são bem programadas, o suspense é equilibrado. Apesar de formulaico, o desenvolvimento das histórias pequenas e grandes quase sempre faz você não agüentar de ansiedade de ver o próximo capítulo.
Os personagens são arquétipos, claro. Mas são defendidos por um elenco surpreendentemente homogêneo e cativante. Levante a mão quem não adora a crueldade de Sawyer, a ambigüidade de Kate ou os mistérios de Locke.
Com suas escorregadas melodramáticas aqui e ali, o grande trunfo de Lost, enfim, é a curiosidade. Trata-se o tempo inteiro do desconhecido, de acontecimentos fantásticos e de muitos mistérios. E, desde sempre, quando se lida de maneira competente com o insondável, cria-se uma isca saborosa, difícil de não ser mordida pelo público.
Mas toda essa introdução é para dizer algo que pode parecer sem propósito, mas que intriga. É assombroso o quanto Lost, em seu microcosmo fictício, emula dinâmicas sociais e comportamentais tão distantes e tão próximas do universo que aborda. Ilhados estamos todos nós.
Não se custa muito a perceber que, naquela ilha perdida, a grande dificuldade é a comunicação. As pessoas não se falam o suficiente, não se entendem o suficiente, não são generosas o suficiente. Na luta pela sobrevivência, e na luta pelo poder dentro da sociedade ali formada, alguns egos transbordam, outros retraem-se e os seres convivem enfrentando-se, em vez de simplesmente ajudarem-se.
O olhar, o gesto e a atitude lançados ao outro, e aos Outros, para ser específico na trama do seriado, é sempre de desafio. O perigo está sempre suposto, ou simplesmente projetado, sem necessariamente existir. Dessa forma, o medo é uma fabricação puramente subjetiva.
(Lost sabe que ronda essas questões e as cutuca bem, até, para um programa de aventura.)
Agora pense na pessoa que vem lhe pedir para limpar seu vidro do carro no semáforo. Você a está enfrentando ou convivendo com ela? Ela te dá medo por quê, ó cara pálida? O PCC está te enfrentando ou tentando te entender? E você? Está tentando entender o PCC? Ou simplesmente o está condenando à morte, sem julgamento?
Que Lost e a realidade social brasileira (falo da brasileira porque moro aqui, conheço aqui, sei como funciona aqui) se assemelhem na brutalidade das relações humanas que apresentam, pautadas pela total falta de diálogo e de busca pelo entendimento, pode ser um pensamento de longo alcance de alguém que quer ver bastante.
Mas vai lá, passe os olhos por todos aqueles 48 episódios produzidos até agora (a primeira temporada está lançada em dvd no Brasil, a segunda está atualmente em exibição pelo canal a cabo AXN) e me diga se não há, nessas linhas, um pouquinho de pertinência.
DICA
Para adensar o pensamento sobre humanos versus humanos, sociabilidade conflituosa, intolerâncias diversas e vidas cerceadas, não deixe de ver Código Desconhecido, sensacional filme de Michael Haneke (diretor atualmente em cartaz com outra maravilha, Caché). Tá ali perto, numa boa locadora de dvd.
PS:
Paulo Mendes da Rocha, arquiteto, em sabatina recente:
LIBERDADE "Temos que ser livres de fato. E sentar na rua. Já amanheci deitado com um amigo na sarjeta na praça da República e não aconteceu nada. Em qualquer desses bairros privados, teríamos sido metralhados. Em certos bairros, se eu for pra lá, já vão me perguntar o que eu estou fazendo. Se disser que não sei, que fui passear, vou em cana. Isso é um absurdo. A cidade é democrática. A cidade é livre. O que acontece com essa classe temerosa que se autoalimenta do pavor? Dizem: "Não há segurança". Como pode haver segurança para quem tem filhos? Como? Botar um guizo em cada filho? É impossível. É uma idéia tola, a da segurança, e um instrumento da exclusão."
BURGUESIA "Quando o coro canta na escadaria do teatro Municipal, toda aquela área fica em silêncio. A cidade que a burguesia despreza é muito mais educada do que ela imagina. (...) A parte mais educada da população habita todo dia a cidade. Senão 10 milhões de pessoas não conseguiriam todos os dias fazer o que fazem. Vêm, com dificuldade, voltam, consomem e alimentam o mercado. E dão lucro para os que desprezam a cidade."
E aí, ecoou?
