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Preciso não dormir Até se consumar O tempo da gente Preciso conduzir Um tempo de te amar Te amando devagar e urgentemente Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez E brota no corpo uma outra vez Prometo te querer Até o amor cair Doente, doente Prefiro então partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente Depois de te perder Te encontro com certeza Talvez num tempo da delicadeza Onde não diremos nada Nada aconteceu Apenas seguirei Como encantado ao lado teu.
Um passo pequeno para uma mulher, um passo imenso para toda uma etnia: a ministra chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, tem um orçamento que mal passa de 20 milhões de reais por ano, mas é a primeira vez, em mais de 500 anos da história dos negros no Brasil, que existe um ministério específico para promover a igualdade racial, envolvendo também índios e ciganos, palestinos e judeus. Filha de roceiros, foi empregada doméstica e operária para custear seus estudos e se formou em Serviço Social na PUC de São Paulo. Envolveu-se no movimento feminista, no movimento negro e no PT e, numa ascensão meteórica, se tornou ministra. Ela esclarece que as cotas não são primordialmente para negros e índios, mas para os carentes oriundos das escolas públicas, inclusive brancos, com as cotas sendo distribuídas segundo uma nota de corte e de acordo com a proporção das etnias em cada Estado. Para ela, a conquista principal do movimento pela igualdade racial não são as cotas, nem a sua Secretaria – mas o reconhecimento, pelo Estado e pela sociedade, de que existe racismo no país, estando em desaparecimento o mito da “democracia racial”. E, nesta entrevista, ela é taxativa: é melhor que haja brancos ressentidos por terem nota, mas não terem vaga, do que não haver negros no ensino superior.
Muito se tem escrito sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva e a derrota dos chamados “formadores de opinião". Sem dúvida, o segundo mandato de Lula pôs a nocaute o campo jornalístico brasileiro, seus estatutos de verdade e a crença nos dispositivos que regulam a relação entre os responsáveis pela produção e difusão do noticiário..
Um misto de perplexidade e consternação já havia tomado conta de nove entre 10 colunistas quando, em meados de abril, o instituto Datafolha publicou pesquisa sobre intenção de votos para presidente. Lula, apesar do bombardeio midiático, mantinha estável sua liderança . Em artigo para o Observatório da Imprensa (“Datafolha rasga fantasia iluminista da Imprensa”, edição 376, 10/4/2006) alertamos para o fato de estarmos diante de algo que merecia reflexão mais séria da própria imprensa sobre seu papel na sociedade.
Destacamos que "mais que a inviabilidade eleitoral do ex-governador paulista, o instituto talvez tenha capturado um dado de extrema importância: a deslegitimação do discurso jornalístico e das representações que estão por trás dele. Salientamos também que “da seleção e organização de informações à edição, temos visto, em quase todos os veículos, a orientação editorial condicionar o conteúdo da reportagem. A negligência investigativa transformou-se no foco adequado a um jornalismo marcadamente de campanha. Ora, a crise do atual governo é, em grande parte, uma realidade produzida por recortes de mídia. Não poucas vezes, o dado concreto cedeu lugar à imaterialidade midiática. Indícios viraram manchetes. E, não tenham dúvida, estas reaparecerão na campanha eleitoral. O resultado é a saturação que deslegitima o fazer jornalístico como práxis ética”. Mas o ódio classista não comportava inflexões.
A forma como o discurso noticioso se organizou e se reproduziu é algo que talvez só encontre paralelo nos episódios que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954. Ou ao golpe militar, 10 anos depois. Redações e ilhas de edição se transformaram em trincheiras do udenismo redivivo. Articulistas, colunistas e jornalistas-blogueiros disputavam entre si quem melhor reencarnaria Carlos Lacerda. Ainda não haviam percebido que se lhes sobrava a determinação do colunista e parlamentar golpista, faltavam-lhes a substância e os recursos estilísticos daquele que ficou conhecido como o “Corvo". Mas havia uma aposta, e ganhá-la transformou-se em questão pessoal, depois que o patronato liberou a besta-fera que havia em cada um.
O que não perceberam é que a empreitada estava fadada ao fracasso por um motivo simples. A sociedade patrimonialista, cordata e gelatinosa que o colosso midiático julgava ter em mãos ficara em algum lugar do passado. A democracia ampliada já não comportava alternância intraelites. O componente classista estava pronto para ingressar no jogo político. O apoio a Lula não era expressão de um consenso passivo e os que provaram o gosto da cidadania recém-adquirida não estavam dispostos a chancelar retrocessos. As classes populares queriam algo além de uma participação vicária, isto é, exercida por representantes que não pertenciam a ela. A inserção direta na esfera política estava sendo consolidada por movimentos sociais que, sem perder autonomia, dialogavam com o governo. Os setores mais lúcidos da esquerda não alimentavam ilusões rupturistas. Erros passados não se repetiram. Não houve quem confundisse chegada ao governo com tomada do poder.
Talvez esteja aí o equívoco capital do campo jornalístico. Embevecido com a centralidade que desempenha no processo político, ignorou as mudanças ocorridas na formação social em que atua. A maioria dos articulistas ainda se julgava membros de um "parlamento sem voto". Senhores da informação, tutores da opinião. Quanta ilusão perpassou o facciosismo, o ódio de classe e a índole golpista desses respeitáveis senhores e senhores das mais conceituadas publicações brasileiras.
No auge da crise, em 2005, julgavam que o PT e Lula estavam feridos de morte. Apostavam na obstrução de canais políticos e em crise institucional. Enquanto CPIs disputavam holofotes, os principais analistas vaticinavam que, sobrevivendo ao turbilhão, Lula chegaria a 2006 sem base partidária e, se tentasse a reeleição, o faria apoiado por seu carisma e um populismo que lhe traria votos dos grotões.
Um ano depois, vêem o presidente reeleito, com excelente desempenho eleitoral da sigla. Lula conta com o apoio de 16 governadores (eram três em 2002) e amplo respaldo dos principais movimentos organizados. Se o PT precisa investigar os responsáveis por procedimentos internos que chamuscaram seu capital simbólico, a imprensa deve afinar sua banda antes de querer impor ao governo reeleito a agenda dos derrotados.
Na edição de 28/12/2005, de Veja, Diogo Mainardi escrevia “Passei o ano todo amolando Lula. Dediquei-lhe mais de trinta artigos. Fracassei. Prometo derrubá-lo em 2006". O bolor udenista do inculto colunista de Veja demonstra o quanto a direita empobreceu estilisticamente. Mas o que talvez mais incomode a mídia brasileira esteja no rescaldo da crise. Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Josias de Souza, Fernando Barros, Merval Pereira, Dora Kramer e Ricardo Noblat, entre tantos outros, sofreram um sério revés. Ao "maianardizarem" parecem não ter notado que seus leitores cativos ficariam restritos à direita mais reacionária, ressentida e atrasada. Como afirmava Herbert de Souza, o saudoso Betinho, “toda informação é uma proposta ou elemento de formulação de proposta”. Quando aceita, a união é estável e duradoura. Que sejam felizes. Por que não? Jornalistas e leitores militantes também merecem a felicidade. Mesmo que ela surja de um pequeno ruído.
rio 40 graus cidade maravilha purgatório da beleza e do caos
capital do sangue quente do Brasil capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil
cidade sangue quente maravilha mutante
o rio é uma cidade de cidades misturadas o rio é uma cidade de cidades camufladas com governos misturados, camuflados, paralelos sorrateiros ocultando comandos
comando de comando submundo oficial comando de comando submundo bandidaço comando de comando submundo classe média comando de comando submundo camelô comando de comando submáfia manicure comando de comando submáfia de boate comando de comando submundo de madame comando de comando submundo da TV submendo deputado - submáfia aposentado submundo de papai - submáfia da mamãe submundo da vovó - submáfia criancinha submundo dos filhinhos
na cidade sangue quente na cidade maravilha mutante
rio 40 graus...
quem é dono desse beco? quem é dono dessa rua? de quem é esse edifício? de quem é esse lugar?
é meu esse lugar sou carioca, pô eu quero meu crachá sou carioca
"canil veterinário é assaltado liberando cachorrada doentia atropelando na xinxa das esquinas de macumba violenta escopeta de sainha plissada na xinxa das esquinas de macumba gigantesca escopeta de shortinho de algodão"
cachorrada doentia do Joá cachorrada doentia São Cristóvão cachorrada doentia Bonsucesso Cachorrada doentia Madureira Cachorrada doentia da Rocinha cachorrada doentia do Estácio
na cidade sangue quente na cidade maravilha mutante
rio 40 graus...
a novidade cultural da garotada favelada, suburbana, classe média marginal é informática metralha sub-azul equipadinha com cartucho musical de batucada digital
meio batuque inovação de marcação pra pagodeira curtição de falação de batucada com cartucho sub-uzi de batuque digital, metralhadora musical
de marcação invocação pra gritaria de torcida da galera funk de marcação invocação pra gritaria de torcida da galera samba de marcação invocação pra gritaria de torcida da galera tiroteio de gatilho digital de sub-uzi equipadinha com cartucho musical de contrabando militar
da novidade cultural da garotada da favelada suburbana de shortinho e de chinelo sem camisa carregando sub-uzi e equipadinha com cartucho musical de batucada digital
na cidade sangue quente na cidade maravilha mutante
rio 40 graus cidade maravilha purgatório da beleza e do caos
A queda do Boeing da Gol durou dois minutos e meio. A Aeronáutica concluiu que a asa esquerda do avião menor, o Legacy, cortou um pedaço da asa direita do Boeing, e que este caiu na selva em espiral da altura de 37 mil pés. Dois minutos e meio. Imaginem o terror dos 154 inocentes encerrados no gigantesco ataúde de aço em queda livre. Fico me indagando quantos segundos sofreram a antevisão da morte certa, antes de perderem os sentidos com a despressurização e a falta de oxigênio. Horror. Não há palavras para descrever. Além da dor dos familiares e da impotente compaixão diante do irremediável, cai-se agora no capitulo das responsabilidades. E aí entra o "money, money, money" linguagem que os americanos entendem bem e gostam, quando é a favor deles. Dessa vez é contra, e muito, e eles estão correndo atrás do prejuízo. O avião. Um Boeing 737-800 igual ao que foi derrubado custa de 66 a 75 milhões de dólares, dependendo do kit conforto que tiver dentro. As vidas. Vidas não tem preço, mas de qualquer maneira 154 famílias terão de ser indenizadas. Haverá uma batalha jurídica de proporções monumentais. O seguro da ExcelAire, companhia americana de táxi aéreo dona do Legacy e empregadora dos pilotos envolvidos no acidente, não cobre falha humana. Os dois pilotos americanos tiveram seus passaportes apreendidos pela Aeronáutica. Na prática estão detidos para averiguações, o que é perfeitamente justo. É o mínimo, aliás. E aí estão acontecendo coisas surpreendentes. Para os jovens que não tiveram tempo de aprender o que nós mais velhos queríamos dizer com "imperialismo americano", temos aí uma exposição a vivo e em cores. O triste episódio é uma aula magna sobre como os arrogantes vizinhos do Norte nos enxergam e como se comportam em momentos de crise, principalmente quando se trata de defender o sagrado direito de suas empresas e cidadãos fazerem o que bem entenderem no país dos outros e saírem ilesos. Radares da Amazônia. O jornalista do New York Times que estava a bordo do Legacy, e que tem tanta autoridade técnica quanto eu ou você, desqualificou o sistema de controle aéreo brasileiro em entrevista fartamente divulgada mundo afora. No dia seguinte outra reportagem levanta duvidas sobre o bom funcionamento do transponder (receptor-transmissor do avião que dá o sinal para a torre de controle) do jato fabricado pela brasileira Embraer. No terceiro dia o advogado dos pilotos afirma que os pilotos entraram em contato sim, mas a torre não respondeu. O advogado ex-ministro. Da maneira como eles enxergam o Brasil, um bom advogado tem de ser um ex-ministro da Justiça, capaz de fazer amigos e influenciar pessoas, como o dr. José Carlos Dias. O proprietário da ExcelAire, Bob Sherry, declarou: "Se houver qualquer pessoa por lá (no Brasil) que tenha influencia política ou qualquer outra forma (grifo meu) de trazer nosso pessoal de volta, nós agradecemos". Para bom entendedor... Até mesmo a secretária de Estado Condoleezza Rice está sendo mobilizada para retirar os dois do Brasil o mais rápido possível, e com isso prejudicar as investigações. Como disse um indignado oficial da Força Aérea Brasileira, "se fosse um avião brasileiro atingindo um avião comercial norte-americano, o piloto já estaria preso na Base Guantanamo, sendo tratado como terrorista". Meu amigo Abelardo Gomes de Abreu, morador antigo e estimado de São Sebastião, foi há dois meses representar o Brasil num campeonato de remo nos Estados Unidos e teve de se despir no aeroporto para ser revistado dos pés à cabeça. Ou seja, um turista brasileiro nos Estados Unidos é tratado como suspeito. Ao passo que dois super-suspeitos americanos do maior desastre aéreo no Brasil devem ser tratados como turistas. "Imperialismo americano", crianças, é isso. Na dolorosa tragédia de alguns dias atrás o único que talvez se saia bem é o Legacy produzido na vizinha São José dos Campos. Vai vender, e como. Afinal, um aviãozinho daqueles derrubar um Boeing e só danificar a pontinha da asa, é porque é muito bom. David Lerer é médico e ex-deputado federal Esta mensagem foi enviada por Luiz De Aquino.