Este blog tem a pretensão de promover cultura, discutir informações e entreter através de imagens, vídeos e artigos. Colabore com artigos e sejam bem vindos! Obrigado
20 maio 2009
18 maio 2009
O DRAMA DA PETROBRÁS
Waldo Luís Viana*
Pouca gente sabe, mas já fui empregado da Petrobrás. Não terceirizado, mas por concurso. E pedi demissão, dez meses depois, sendo entrevistado por quatro psicólogas que, naturalmente, me olhavam atônitas. Saí, porque queria completar o curso de Economia na Gama Filho, chegava em casa à meia-noite, atravessando toda a cidade, do bairro de Piedade ao Leme, jantava, dormia de madrugada e acordava às seis e trinta da manhã para estar às oito no Edifício-sede.
Em minha época, 1976, não havia auxílio-refeição, vale-transporte, nem nada. Era só o salário-seco, mais auxílio-periculosidade (para subir e descer de elevador) e cartão de ponto. Ah, como detesto cartão de ponto, mas agradeço a Deus, porque foi o pavor dele que me fez poeta: “sou um homem que vive nos interlúdios concedidos pelo relógio de ponto...” – dizia, nos versos trôpegos da mocidade...
Queria ser escritor – imagina?, no Brasil de Paulo Coelho e José Sarney – e as psicólogas me perguntavam, sofridas, o motivo de eu querer ir embora. Sem muita paciência – já tinha pavio curto naquela época – redargui: “quero ver o sol nascer...”. Elas não entenderam nada, tadinhas, mas eu chegava em casa tarde, saía cedo e não via o sol subir no horizonte. Coisa de poeta.
Fui colocado no serviço de pessoal e era tão bom datilógrafo que me puseram para compulsar documentos sigilosos sobre a empresa. Impressionou-me a quantidade de internações psiquiátricas entre os petroleiros, mas isso não podia comentar com ninguém. Internavam-me em sala sem janela e fui dos únicos datilógrafos a utilizar máquinas elétricas com pedais, já extintas, para confeccionar tabelas de relatórios “top-secret” para a diretoria. Minha curiosidade era imensa e, como era muito rápido, lia tudo e anotava os detalhes escabrosos num bloquinho. Tudo isso eu já destruí, mas de memória, na época, o maior número de internamentos eram os do serviço de contabilidade. Fora a incidência de alcoolismo que era muito grande. Segredo maior do que o da Igreja Católica em relação aos padres...
Há trinta e dois anos, com Shigeaki Ueki na presidência, vivíamos as consequências do choque do petróleo, que fizeram o japonezinho desligar a sua piscina de água quente para poupar energia. Como fazia parte da “peãozada”, fingia-me de morto e não tocava em política, assunto proibido. A Petrobrás já era, então, orgulho nacional e não havia pai de família que não estufasse o peito de orgulho, quando afirmava que o filho trabalhava na empresa.
Quando pedi demissão descontentei meus pais. Resolvera seguir o destino pedregoso e íngreme da não burocracia. Para mim, era insuportável ver aqueles técnicos de administração, de gravatinha, batendo em meu ombro e dizendo a frase-modelo: “meu filho, quando eu me aposentar...”
A empresa articulava uma tecnologia mental no empregado, como se não funcionasse sozinha, dada a sua grandiosidade. Muitos trabalhavam com febre, com medo de ir ao serviço médico e serem mal vistos pelos chefetes de seção.
Naquela época, a empresa gastava 11% de seu orçamento com despesas de pessoal e, atualmente, reduziu esse “gasto” entregando algumas atividades-meio a terceirizados, aliás muito mal vistos pelos concursados, que detêm crachá autêntico. Não sei como está hoje, mas o cartão de ponto é exigido até para profissionais de curso superior, os horários são rígidos e a mega-empresa continua um quartel. De fazer inveja aos atuais militares que nem rancho têm para oferecer aos recrutas.
Os privilégios dos petroleiros existem, mas as benesses e salários-extras continuam em poder de uma elite muito bem estabelecida, estruturada e corporativa. São ciosos de seus privilégios e têm cabeça de funcionários públicos, ou seja, sabem que se mantiverem a cabecinha conservadora, não contestatória, se lamberem muito bem as botas dos chefes, permanecerão até a aposentadoria, quando como verdadeiros trapos humanos vão requerê-las, com complemento financeiro da fundação PETROS.
Essa empresa hoje é imensa, tentacular, um estado dentro do estado, e a União, apesar de todos os esforços do governo tucano para privatizá-la, no que foi impedido pelo Alto Comando do Exército, ainda detém 51% do capital das ações com direito a voto. Com a troca de governo, tornou-se a joia da coroa do PT e é administrada diretamente pelo Palácio do Planalto e pela Casa Civil, passando por cima, na prática, da natural hierarquia do Ministério das Minas e Energia.
Quem manda na Petrobrás é Lula e Lula desmanda na Petrobrás. Era para ser o paraíso petista, mas nunca o foi. Os petistas invadiram a empresa, de alto a baixo, como a KGB fazia na União Soviética com o controle dos bairros em Moscou. Nenhum cargo de confiança ficou incólume. O comissariado manda e desmanda mesmo. Todo mundo baixa a cabeça, naquela técnica de sabujice de quem quer sobreviver, esperando novos tempos. Precisaríamos de um Machado de Assis ou de um Lima Barreto para descrever o que acontece na mente dos chefes de seção e dos engenheiros de staff. Principalmente aqueles que assistem à farra das concessões orçamentárias a diversas ONGs desconhecidas...
Os controles e auditorias internos são draconianos, principalmente no varejo. Os gastos no atacado, em dólares e euros, sob responsabilidade das diretorias e do Conselho de Administração fogem à imaginação dos mortais da planície ou a qualquer vasculhador que não seja do meio. Para quem não conhece economia de petróleo, as tacadas são indetetáveis!
Como uma empresa de petróleo, mesmo mal administrada, é um supernegócio, bastaria uma vista d’olhos nas firmas fornecedoras da Petrobrás, muitas delas criadas por ex-funcionários, e os escritórios de advocacia, para os contenciosos surgidos com os que negociam diretamente com ela, para assuntar diversas surpresas. Isso seria matéria para os serviços de inteligência da Polícia Federal, da ABIN, do CADE e de outras agências, além da curiosidade atenta do que os petistas chamam de mídia golpista. Isso sem falar no Ministério Público, que tem tantos procuradores jovens e loucos para defender os altos interesses da sociedade. Aqui vai a todos eles um terno pedido do poeta: por favor, deem um passo à frente...
Agora vemos essa CPI montada no Senado, com cara e enredo de chantagem. Com a grana e os interesses em torno da empresa, é muito fácil que a Comissão não dê em nada, embora se o esterco for remexido, não venha a sobrar pedra sobre pedra. A Petrobrás é um dos sustentáculos da Pátria, assim como Jerusalém era a capital dos judeus e do cristianismo. Mesmo assim, a cidade um dia foi destruída e mudou a história do mundo.
Não admira que o drama da Petrobrás, orgulho nacional seja tão grande. Tão grande quanto uma plataforma! Aliás, tudo é gigantesco naquela empresa que tantos serviços têm prestado a ela mesma e a sua burocracia. Inclusive batendo às portas da corrupção. O povo brasileiro, seu pretenso proprietário, espera por explicações...
É claro que em 180 dias os senadores não irão apurar coisa alguma. Eles só querem desviar o foco dos escândalos sobre o Congresso e culpam o governo Lula por não os haver defendido, tal como o fez nos tempos dos hierarcas do mensalão.
Mesquinharia se paga com mesquinharia. Assim, nada como mexer com a joia da coroa e fazer a opinião pública esquecer logo das mordomias do Senado e outras futilidades, não defendidas a contento pelo governo atual. E com seis meses decorridos vem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e mais um ano de eleições. E Suas Excelências estarão salvas para disputar novo pleito, quem sabe com financiamento dos próprios lobistas e empresários que sobrevivem dos nababescos negócios ligados ao petróleo brasileiro.
Vamos assistir de camarote a mais uma pantomima teatral. Não é comédia. É o drama da Petrobrás, a grande empresa, orgulho nacional, de qual um dia, num acesso de capa e espada, me demiti...
_____
*Waldo Luís Viana é escritor, poeta, economista e ex-empregado concursado da PETROBRAS. Aliás, de primeiro emprego a gente nunca esquece...
Teresópolis, 16 de maio de 2009.
31 março 2009
Quem quer ser um milionário ?

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Ninguém apostaria que Jamal Malik chegasse a algum lugar; pelo menos,algum lugar fora daquela favela miserável em que nasceu e cresceu aos trancos e barrancos como crescem as ervas daninhas. Quem sabe, teria o destino dos seus iguais; com sorte, seria capanga de algum brutamontes explorador de crianças ou terminaria os dias cego, pedindo esmolas com um cantochão monótono e triste. Se fosse mulher, certamente seria prostituta, talvez desde os sete ou oito anos,s ubmetida a um odioso cafetão. Assim é na Bombaim que Jamil nasceu,hoje chamada Mumbai, mas parece que foi a única mudança que houve,mudou o nome, só: a miséria é a mesma, a fome não mudou nada, a violência crescente, doída, desumana, também não.
Mas, Jamal era diferente; tinha a marca dos vencedores que eu chamo a marca de Caìm; tinha auto-confiança,persistência e determinação,mas,sobretudo,coragem;suportou a fome, a insegurança, a tortura, a miséria extrema (perto das favelas da India, as do Rio são Vieira Souto), a morte da mãe, a separação da garota que amava. E, sobretudo, aprendeu com o sofrimento. E chegou lá.
Este é o tema do magistral filme ”Quem quer ser um milionário?” (Slumdog Millionaire), ganhador de 8 Oscars, desde a semana passada, no circuito. Todos deveriam vê-lo; esta ordem deveria estar na Constituição, nos decretos, na lei-gente! é imperdível!
A direção impecável de Danny Boyle, a interpretação dos atores, a música, as canções,os cenários, tudo, faz deste, um dos maiores filmes de todos os tempos. Dev Patel, que faz Malik, um jovem estreante, dá um banho de representação.
Irrfan Khan, um excelente ator, faz o chefe de policia de uma forma impecável .Ele é pago pelo dono do programa de perguntas e respostas ,uma espécie de Silvio Santos de lá, para extrair do rapaz o motivo de estar acertando todas as perguntas; um slumdog, (cachorro de favela ,Chica ,era como se tratavam as crianças na Índia) um favelado miserável e ignorante, como poderia ter tal conhecimento? Assistam o filme para saber.Como digo sempre,inteligência não é cultura e o doce Jamal provou que eu estou certa. Sem estudos e talvez escrevendo com erros gramaticais e ortográficos dá um banho nos intelectualoides que abundam em todos os lugares.
Quando o filme acabar,se vocês não estiverem cegos pelas lágrimas,que,naturalmente derramaram,não saiam da sala.Ainda teremos muita novidade,algo lindo,que lembra o “West Side Story”
RoteiroRoteiro_de_Filme_ou_Novela-->QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? -- 01/03/2009 - 10:53 (Mirian de Sales Oliveira da Rocha) Extraído site Usina de Letras www.usinadeletras.com.br
'Matrix' faz 10 anos como ícone do cinema de ficção científica


Ter, 31 Mar, 10h10
Antonio Martín Guirado.

Los Angeles (EUA), 31 mar (EFE).- Além de ganhar quatro Oscar, arrecadar mais de US$ 460 milhões nas bilheterias e ter aberto as portas ao cinema do futuro, "Matrix" representou a simbiose entre espetáculo audiovisual e filosofia, e se tornou todo um fenômeno da ficção científica cuja estreia completa dez anos nesta terça.
Desde a imagem cibernética do começo, cujas letras e números verdes e desordenados se tornaram, depois, um clássico de protetor de tela para milhares de computadores, até seu emocionante e romântico final, "Matrix" é puro cinema do século XXI, apesar de ter estreado em 1999.
No filme, Thomas Anderson (Keanu Reeves), conhecido com Neo, descobre, graças a Morpheus (Laurence Fishburne), um dos mais procurados pelas autoridades na época em que se passa a produção, que o mundo no qual vive é uma ilusão gerada por computador, colocada diante de seus olhos "para esconder a verdade".
Essa "verdade", no filme, é que os seres humanos são escravos das máquinas, que, em determinado momento da história, se rebelaram. Como explica o longa-metragem: "Existem campos intermináveis onde os humanos não nascem. São cultivados".
Enquanto isso, a população vive em uma realidade virtual, a mesma que distrai as mentes humanas -em uma releitura do mito da caverna de Platão -, enquanto os corpos são usados como fonte de energia para manter as máquinas funcionando.
Aí começa a missão, repleta de simbolismo cristão, de Neo - anagrama de "One" ("Um"), o escolhido -, que deve liderar a luta pela liberdade da humanidade, a partir da cidade de Zion, com a ajuda de Trinity (Carrie-Anne Moss).
"Imagino que, agora mesmo, você esteja se sentindo um pouco como Alice. Entrando na toca do coelho?", ironiza em determinado ponto do filme Morpheus, em seu primeiro encontro com Neo.
Esta é uma das ocasiões na produção em que aparece este coquetel de referência a clássicos.
Os irmãos Larry e Andy Wachowski, diretores e roteiristas do filme, rechearam o filme, que possui fãs e críticos ferrenhos, com homenagens às suas produções favoritas no cinema.
Isso é visto nos dilemas sobre inteligência artificial, como em "O Exterminador do Futuro", o aspecto visual, que lembra "Blade Runner - O caçador de androides", o parasita que é introduzido no corpo humano, que remete a "Alien - O Oitavo Passageiro", ou a perseguição pelos telhados, como em "Um Corpo que Cai".
"Matrix", que conta com uma trilha sonora à altura e repleto de imaginação, combina as premissas da ficção científica tradicional com uma tecnologia em efeitos especiais nunca vista até então.
Um dos destaques do filme é a técnica "bullet time photography", uma grande desaceleração feita com a ajuda de computadores e que registra até 12 mil quadros por segundo, usada em cenas como a que Neo consegue desviar dos tiros de um dos agentes que o perseguem.
A meio caminho entre um relato futurista de Philip K. Dick e o cinema de artes marciais de Hong Kong, o resultado final da obra dos Wachowski iniciou o debate sobre a convergência cultural, entendida como uma participação muito mais global em suas manifestações.
Em torno da franquia (depois de "Matrix" vieram "Matrix Reloaded" e "Matrix Revolutions", ambos de 2003), foi criado todo um império baseado em histórias em quadrinhos, sites, desenhos animados e videogames, que eram partes fundamentais para compreender todo o universo da saga.
Essas peças do quebra-cabeças, que remetiam umas às outras, criando uma narrativa comum, levavam a história até terrenos não explorados na trilogia, o que fez com que a acolhida aos dois últimos filmes não fosse tão calorosa, já que eles traziam alguns detalhes desconhecidos do grande público.
Quem explica isso é Henry Jenkins, fundador do programa de Estudos Culturais dos Meios do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), no livro "Cultura da Convergência".
"Muitos críticos arrasaram as sequências porque não eram suficientemente lógicas em si mesmas e beiravam a incoerência", acrescentou.
"Você acredita em destino?", "Você acredita que tem o controle de sua vida?", "O que é real?" são algumas das reflexões lançadas pelo primeiro filme ao longo de seus 136 minutos, antes de Neo, já convertido em messias, fale com o espectador e comece a voar, fechando a primeira parte da trilogia.
"(Vou mostrar às pessoas) Um mundo sem regras ou controles, sem fronteiras ou cercas. Um mundo onde tudo é possível. Para onde vamos é uma escolha que deixo para você", afirma o protagonista da saga. EFE
30 março 2009
Watchman - O filme
| Watchmen - O Filme |
Angélica Bito
Quando Watchmen foi publicado nos EUA, entre 1986 e 1987, a tiragem era limitada. Nem a DC Comics apostou que esta história em quadrinhos de adultos que se fantasiam para combater o crime poderia conquistar os leitores. O fato é que a complexidade da obra de Alan Moore e Dave Gibbons, vista claramente na trama e nos personagens que conduzem os 12 capítulos da série, conquistou os leitores. Novas tiragens foram lançadas e elas seguem conquistando novos admiradores ao longo dos anos.
Um deles é Zack Snyder, que, depois de dar vida a outra graphic novel (300, seu longa anterior, é baseado em Os 300 de Esparta, de Frank Miller), encara novamente o desafio de dar movimento a uma HQ. Em Watchmen – O Filme - projeto que Hollywood ronda desde os anos 90 -, o diretor abraça a possibilidade de tornar cinematograficamente possível toda a complexidade da graphic novel, apresentando um filme de super-heróis para adultos.
A ação se passa em outubro de 1985, nos EUA, numa época marcada pela Guerra Fria e o iminente conflito nuclear entre o país e a União Soviética. O violento assassinato de Edward Blake (Jeffrey Dean Morgan) faz com que histórias esquecidas no passado venham à tona. Conhecido como Comediante, Blake fez parte de dois grupos de combatentes do crime que atuavam fantasiados pelas ruas dos EUA. Os Minutemen foram formados em 1940; a segunda geração, os Watchmen, atuaram até 1977, quando foi criada a lei Keene, que tornava ilegal a atividade de justiceiros mascarados. O assassinato do Comediante faz com que os personagens voltem a se reunir a fim de descobrir que tipo de conspiração é essa que levou ao crime.
Os grupos não são formados por super-heróis, mas sim pessoas que, talvez com desvios de personalidade, resolvem vestir fantasias para combater o crime; o único possuidor de poderes é o dr. Manhattan (Billy Crudup), um sujeito azul, luminoso que não usa roupas. Antes de ser transformado, ele atendia pelo nome de Jon Osterman. Trancado acidentalmente em uma câmara de testes durante um experimento de física nuclear, o físico é desintegrado, mas, ao invés de morrer, reaparece alguns dias depois como o dr. Manhattan, ostentando uma força super-humana, o poder da telecinese, de ser teletransportado para distâncias até mesmo intergaláticas, a manipulação da matéria em nível subatômico e a capacidade de ver o seu futuro.
Quem conduz a investigação acerca do assassinato do Comediante é Rorschach (Jackie Earle Haley), um cara duro que vive no submundo de Nova York e não deixou de usar sua máscara feita de um tecido cujas manchas são capazes de se mover independentemente – um tecido de látex feito com alta tecnologia, conforme a HQ explica. Como um detetive dos filmes noir, tanto no figurino quanto na narração em off que conduz à medida que escreve seu diário, Rorschach é um cara duro e violento, resultado de uma série de acontecimentos nada agradáveis em sua história. Logo ele ganha a ajuda do Coruja (Patrick Wilson) e de Laurie (Malin Akerman) – filha de uma musa dos Minutemen, a envelhecida e nostálgica Sally Jupiter (Carla Gugino) – para prosseguir com as investigações, enquanto o temor de uma guerra nuclear cresce a cada dia.
Watchmen – O Filme traz personagens complexos, protagonistas de tramas que se cruzam a todo momento, ao mesmo tempo em que o passado é explicado por meio de flash-backs. Esta narrativa toda picotada é característica que vem essencialmente da série em HQ original. Ao mesmo tempo em que mantém viva essa forte ligação entre a obra de Moore e Gibbons e o filme de Snyder, faz com que o longa apresente-se complexo demais para as grandes platéias, aquelas que procuram leveza numa sala de cinema. O que também acabou ocorrendo com a série original, aliás, lançada no mercado editorial revolucionando o conceito de quadrinhos sobre heróis. Embora revolucionária, nunca conquistou um público como as histórias de Homem-Aranha, Batman, Super-Homem e afins. Os heróis de Watchmen sempre foram repletos de defeitos, problemas de personalidade, traumas, tropeços, tornando-se melhor definidos como anti-heróis. Mas que conheciam a podridão da sociedade como poucos e, por isso, talvez tivessem uma idéia de como salvá-la. Afinal, é em busca da salvação mundial que os heróis sempre estão, mesmo sendo dos mais degenerados como os de Watchmen.
O que impressiona em Watchmen – O Filme é o cuidado que o longa tem com elementos estéticos da HQ, bem como algumas referências que continuam na obra cinematográfica, o tom de ironia dos personagens e da própria trama em si. Não à toa, Snyder confessou ter desenvolvido a direção do longa tendo a própria graphic novel fazendo as vezes de storyboard, o que fica bem claro quando o filme apresenta ângulos e movimentos de câmera que reproduzem a fluidez da obra original. Já a fotografia e a direção de arte ganham elementos sombrios nesta adaptação, diferentemente das muitas cores presentes na obra original. O tom aqui é noir, também pelo medo e a paranóia de uma guerra nuclear – presente não somente nos anos 80, mas no anos seguintes também -, que pairam a todo momento.
A caracterização dos personagens em Watchmen – O Filme foi feita de forma bastante cuidadosa, essencial para que os muitos fãs da obra original possam se sentir satisfeitos. Até a máscara de Rorschach, que está em constante mutação, ganha vida única na tela. Não somente esteticamente, mas psicologicamente, a densidade dos personagens é preservada no filme de uma forma como somente um fã poderia fazer. Snyder também deixa sua assinatura ao incluir alguns litros de sangue na trama.
Os diálogos e narrações também foram mantidos de forma fiel, o que acaba atrapalhando na fluidez narrativa. Afinal, estamos falando de cinema. Se na HQ cabiam tantas explicações textuais, no cinema o desafio é encontrar forma de transformá-las em imagem. Claro, estava aí um elemento complicado para esta adaptação: levar o próprio texto da obra original para o cinema e, embora a tarefa tenha sido concluída, ainda faltam arestas a serem aparadas. São essas arestas as que podem manter um público mais amplo longe dos cinemas. O excesso de diálogos e narração, bem como a extensa duração da produção – duas horas e 40 minutos –, são cansativos.
Fãs mais puristas podem torcer o nariz para a mudança no final, mas ela não é tão radical a ponto de fazer com que toda a história perca a razão de ser. Veículos diferentes pedem leituras diferentes, isso não é segredo para ninguém. A questão é: será que o filme conseguirá despertar o interesse e mantê-lo junto aos que não conhecem a obra original? O desafio que enfrenta neste segundo momento Watchmen – O Filme, depois de pronta a adaptação, é despertar o interesse do público adulto em personagens sem super-poderes que se fantasiam para combater bandidos. Desta forma, o longa não deixa de ser corajoso, algo que somente um fã como Snyder poderia ter realizado.
27 março 2009
DESABAFO

clique aqui e assista ao vídeo
Deixa,deixa,deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
[d2]
Segura!!!
[introdução]
Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
Eu já falei que tenho algo a dizer,e disse
Que falador passa mal, e você me disse
Que cada um vai colher o que plantou
Porque raiz sem alma, como o Flip falou, é triste
A minha busca na batida perfeita
Sei que nem tudo ta certo, mas com calma se ajeita
Por um, mundo melhor eu mantenho minha fé
Menos desigualdade, menos tiro no pé
Andam dizendo que o bem vence o mal
Por aqui vou torcendo pra chegar no final
É, quanto mais fé, mais religião
Amor que mata, reza, reza ou mata em vão
Me contam coisas como se fossem corpos,
Ou realmente são corpos, todas aquelas coisas
Deixa pra lá eu devo ta viajando
Enquanto eu falo besteira nego vai se matando
Então
[refrão]
Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
Ok, então vamo lá, diz
Tu quer a paz, eu quero também,
Mas o estado não tem direito de matar ninguem
Aqui não tem pena morte mas segue o pensamento
O desejo de matar de um Capitão Nascimento
Que sem treinamento se mostra incompetente
O cidadão por outro lado se diz, impotente, mas
A impotencia não é uma escolha também
De assumir a própria responsabilidade
Hein??
Que você tem em mente, se é que tem algo em mente
Porque a bala vai acabar ricocheteando na gente
Grandes planos, paparazzo demais
O que vale é o que você tem, e não o que você faz
Celebridade é artista, artista que não faz arte
Lava mão como pilates achando que já fez sua parte
Deixa pra lá, eu continuo viajando
Enquanto eu falo besteira nego vai, vai
Então deixa...
[refrão]
Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar
13 março 2009
Relacionamentos, por Arnaldo Jabor.
09 março 2009
Um dia perfeito
GUERRA CIVIL COMBINA COM BRASIL
GUERRA CIVIL RIMA COM BRASIL
“Porque, agora, vemos como em espelho,obscuramente; então,veremos face a face.” 1 Co., 13:12
Waldo Luís Viana*
Quando era criança, adorava um joguinho com lápis e papel, em que aparecia uma série de pontos num quadrado para interligar. Unindo ponto a outro, ao final surgia o gorila. E como era feio o bicho. E eu sorria... O tempo passou, fiquei adulto, mas permaneceram os olhos e as lembranças do menino. Todavia, não sorrio mais. O que estou vendo hoje, interligando os pontos, é muito perigoso. Resta apenas desmoralizar as Forças Armadas e o Supremo Tribunal Federal como instituições. Como na Jerusalém do passado, não sobrará pedra sobre pedra, como um dia lamentou Jesus. Advirá o momento em que o diálogo entre o governante e o povo será direto, sem intermediários. Teremos então a flor do Lácio do totalitarismo... O gorila estará visível e nu, como todo poder anticrístico. As instâncias intermediárias, as forças que auxiliam a sociedade civil a se proteger de nada mais valerão, a não ser para legitimar o estupro da nação. E nem será necessário colocar a oposição na cadeia, como queria Bakunin, porque neste país se opor é ato que beira o mau gosto. Oposição é crime de lesa-majestade! Nenhuma resistência acontecerá, porque todos se tornaram malandros e não vão colocar a cabeça de fora para ser decepada. E o país rumará ao patíbulo, sem a defesa de seus filhos. Primeiro, tiveram que desmoralizar a classe política que está misturada ao pior esterco da corrupção; em seguida, a atmosfera de insegurança nas cidades e nos campos se generalizou, com assassinatos e o patrocínio do crime organizado ao delírio geral das drogas; mais adiante, a destruição da educação, da saúde e dos valores morais, como causas antiquadas e “cívicas” a serem minimizadas cotidianamente pela mídia. Vemos até o presidente da República atirando camisinhas ao populacho, nem se importando em discutir uma correta política de controle da natalidade. Aliás, reproduzindo-se feito moscas, os pobres e miseráveis serão o caldo de cultura para a futura sociedade planificada na vontade de um homem só e seus asseclas. Se isso não for fascismo, não sei como se chama... Estamos, finalmente, vivendo um filme de terror, em que os brasileiros são os mortos-vivos. Os movimentos sociais e sindicais permitidos vão fazendo o jogo de cena, próprio das ditaduras, fingindo opinião que não mais detêm, emudecidos por verbas oficiais. Estão calados e bem pagos, como estátuas de sal (ou pré-sal)... Estou emitindo essas considerações, mas não sei até quando poderei fazê-las. A sensação de inutilidade, de malhar em ferro frio, é onipresente, porque é próprio das ditaduras desmoralizar qualquer oposição, colocando o crítico eventual numa situação de paralisia psiquiátrica. Passou-se o tempo em que nos chamavam de “reacionários de direita”. Agora, somos loucos mesmo, os que ousam remar contra a pretensa maré da maioria... Alguns de meus censores, candidamente, me perguntam: por que você critica tanto o presidente? E eu respondo; tenho 53 anos e nasci durante o governo Café Filho, sujeito honestíssimo e de caráter ilibado. Aos catorze anos, na casa de meu pai, em plena ditadura, pude conversar por cinco minutos com um estadista, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e o SNI fotografava todos os que entravam no edifício. Testemunhei o transcurso do regime militar, os governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e o atual. Cumprindo o princípio da história brasileira contemporânea, de que o futuro é sempre pior que o passado, jamais vi em minha vida um presidente tão descomposto e hilariante na capacidade de dizer asneiras e batatadas. Pensava que o mais folclórico, nesse sentido, teria sido o general Figueiredo, mas o atual, sem qualquer dúvida, bateu todos os recordes. Ele é o anticristo da estrela de cinco pontas que ainda vai nos trazer enormes tristezas e constrangimentos. E me recuso a crer que o brasileiro se identifique tanto assim com ele por ausência de espírito crítico, cultura e sabedoria. Não me recordo de ter sentido tanto medo e insegurança como hoje em dia. Mudei do Rio de Janeiro, onde ouvia toda noite, em certo bairro nobre, o som das metralhadoras, como se estivesse ao lado de minha cama. Cansado de tantas balas perdidas por perto, resolvi morar em cidade pequena e felizmente ainda não conquistada pela bandidagem. A despeito de tudo, não me calei. Quando ouço falar que o MST está matando gente em Pernambuco e que protesta contra o fechamento de suas “madrassas”, escolas de alfabetização terrorista e fundamentalista no Rio Grande do Sul, fico boquiaberto. Sou do tempo em que os estudantes da UNE protestavam contra o regime. Hoje, saem ridiculamente à rua para reivindicar meia-passagem nos ônibus e nos cinemas. Os estudantes “profissionais”, empanturrados de verbas públicas, calaram definitivamente a boca e parece que, em contrapartida, a juventude só se interessa mesmo por baladas regadas a maconha, crack, cocaína, LSD e ecstasy, para esquecer a realidade mórbida em que vivemos. E os combativos acadêmicos trotskistas de ontem são apenas os universitários conformistas de hoje, que passam trotes violentos... Sou do tempo em que havia preocupação com a proletarização das Forças Armadas. Hoje, além de desequipadas e sem opinião, vão ter que curtir os expurgos futuros causados pela ampliação da lei da anistia e da abertura de arquivos acusatórios sobre alguns oficiais de pijama, ainda vivos. É claro que sob o nobre pretexto de não repetir a tortura, sempre hedionda, o governo procura criar um clima de exagero ao comparar o que ocorreu na ditadura militar com o holocausto nazista. A solução é utilizar o erário para recompensar e enriquecer ex-guerrilheiros e alguns falsos terroristas queridinhos do governo vigente. No entanto, a protoditadura que aí está, não satisfeita, quer ainda armar o circo da divisão social. Como Mussolini, dividir a sociedade em compartimentos estanques para melhor governar e poder sobressair. Nesse contexto, temos o pobre, como entidade genérica eternamente defendida pelo salvador de plantão, colocado em litígio contra as classes dominantes, que nunca estiveram tão bem protegidas e prestigiadas, como neste governo. Negros insurgem-se contra brancos, homossexuais contra heteros, índios e quilombolas contra agricultores, mulheres contra homens, deficientes físicos contra não deficientes – enfim, onde possam se constituir subdivisões sociais e cotas politicamente corretas, eis aí o solo fértil para a manutenção e continuidade do poder protofascista. Com a palavra, o Duce de Garanhuns: nunca neste país... Mãos crispadas nos palanques, faces avermelhadas pelo porre da noite anterior, vai o governante cantando loas às próprias realizações, abrindo veredas para a sucessora predileta, um balão de ensaio caprichoso e sem carisma, fruto de teimosia que nenhum de seus acólitos ousa contestar, a não ser através de uma anticandidatura lançada como eram os antigos cristãos às feras famintas... Nunca neste país o ovo da serpente esteve tão prestes a rebentar. A nação é um paiol de pólvora e não me admirarei se focos de inconformidade, diretamente proporcionais ao terrorismo de alguns movimentos sociais, começarem a surgir. Afinal, guerra civil rima com Brasil e essa licença não pode deixar de ser acolhida com imensa preocupação pelo poeta. Podem dizer de mim o que quiserem, porque me acostumei a unir os pontos de um desenho de início incompreensível e aparentemente inextricável. E o gorila que aparece hoje, tal como o diabo, é grande ator na tarefa de iludir e fingir que não existe. Como disse o apóstolo Paulo, sentir como adulto faz com que esqueçamos a imagem de criança, posta no espelho e vislumbremos a verdade, face a face. Mas ao invés de Deus, o que aparece no Brasil é o gorila... _____* Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e morre de medo de gorilas...Teresópolis, 28 de fevereiro de 2009.
17 fevereiro 2009
Quarta-feira
Lá dentro uma luz irradia, tão artificial quanto o sorriso do caixa eletrônico que dinheiro cuspia.
Aos olhos das lentes monocromáticas ciclópes.
Enrrigecido e preso eu fugia,
sempre atrasado...
E nas salas geladas de ar condicionado assistia imagens vazias projetadas na tela...
via gente que fingia via dor que não doía, sorriso que não sorria...cinema.
Tão falso quanto seu poema enviado por e-mail, tão falso quanto seu toque nas teclas do computador ao escrevê-lo.
Veio-me a mente o seu sorriso... cínico.
Nilo dos Anjos
O NEOCORONELISMO PETISTA


O NEOCORONELISMO PETISTA
“Guerra é Paz,
Liberdade é Escravidão,
Ignorância é Força.”
George Orwell
Waldo Luís Viana*
O Brasil vive a era do escárnio. A corrupção e a violência, de tão banais, já nem despertam manchetes. Tampouco indignação. Esse sentimento ficou relegado aos simplórios e idiotas...
O senador Jarbas Vasconcellos dá uma entrevista bombástica, neste final de semana, dizendo o que todo mundo sabe: que o PMDB é corrupto. Lógico, o resultado: os corruptos do partido irão puni-lo e, com certeza, vencerão, porque são maioria lá dentro. O partido das diretas-Já e do doutor Ulysses, que se tornou apenas um retrato na parede (e como dói...), virou o partido da corrupção, do comércio dos cargos e do escarro das licitações fraudulentas em troca de apoio ao governo.
A estrutura do Executivo, dirigida pelo coronel Lula e seus seguidores sindicalistas, procura agora, à luz do dia e sem nenhuma preocupação com os pruridos formais da Justiça Eleitoral, montar um simulacro de sucessão presidencial, evitando, assim, que a sociedade, na ociosidade do que fazer, cobre alguma coisa sobre outros assuntos mais espinhosos. E até já escolheu os adversários convenientes, os dois governadores do PSDB, para fingir, um ano antes, uma disputa que só interessa aos dois partidos. Como se nada mais existisse no país, que não eles...
Esse jogo antecipado, decerto combinado com o adversário, surte algum efeito, mas as consciências despertas sabem que não é bem assim.
Os petistas, mesmo os mais ligados ao presidente e acostumados com a vigente repartição do butim, estão ressabiados. A sanha fisiológica do PMDB é tanta, seu apetite voraz tão aberto, que a carniça chamada Brasil talvez não sobre para todos os apetites.
Nunca aquela velha frase do deputado udenista Tenório Cavalcanti esteve tão atual: “só existem dois grupos em verdadeira luta no Brasil, os que estão roubando e os que querem roubar...”
Mesmo o Judiciário está aprontando: os ministros do Supremo querem aumento – afinal a crise machuca a todos – sabendo no íntimo que o presidente lhes dará tudo o que pedirem. Também, na situação em que o país está, basta puxar com coragem um fiapo que cai a tenda toda. Mesmo de pé, o cheiro é quase insuportável e até o sr. Marcos Valério anda recebendo ameaças de morte...
A manobra dos fome-zeros, bolsas-famílias e PAC’s tornou-se tão manjada que até os professores universitários, desses que rejeitam nas salas de aula qualquer teoria da conspiração, já estão achando que o governo faz isso para garantir os votos do esculacho...
Ou seja, eles poderiam, inclusive, discutir uma nova tese sobre o presidente. Seria assim: Lula é “geográfico”. Veio do Nordeste num pau-de-arara (ou de navio, como queiram) e retornou a ele, vitorioso, com vinhos franceses e cigarrilhas holandesas. Com o título: “De metalúrgico a Coronel”. Tudo aquilo que no Brasil, desde Gilberto Freyre, fora produzido em vasta literatura sobre o coronelismo está praticamente superado, em matéria de ousadia. E só poderia ser explicado hoje por Lombroso e Nietzsche, de um lado, e, de outro, por Freud e Lacan.
E o Brasil, como esgoto a céu aberto, aclama quase que por unanimidade, o seu coronel! Ele controla o Executivo, com mão-de-ferro, o Legislativo, meio em tom blasé, como se fosse obrigação engolir medidas provisórias e demonstrar a todos o que é um poder agachado e o Judiciário, entupindo-o de benesses e mordomias, quando provocado.
O povo continua faminto, ou vivendo como “deus-qué-né-memo”, mas não destrata o coroné que lhe dá tantas migalhinhas. Essa será a tônica da campanha: assistencialismo e PAC, nada mais. Parece que no Brasil não há o que fazer. Com esses dois esquemas, garantem-se os votos e a eternidade no poder. O coroné sabe o que faz!
Todavia, nosso país não tem inimigos externos nem internos. Vive em paz, certo? Errado. Estamos presenciando uma guerra eterna, como no país imaginário de George Orwell controlado pela teletela e o Big Brother: a paz aqui é guerra permanente, do crime organizado, o de cima e o de baixo, e a violência urbana e rural. No plano externo, criamos fricções onde não existem, apenas para lembrar que o governo do coronel é soberano. Mas como exercer soberania se nossas Forças Armadas estão sucateadas na prática, submetidas apenas ao carinho teórico de projetos? A solução é resolver tudo na diplomacia do papo furado terceiro-mundista, que não ata nem desata e é motivo de riso por todo o planeta...
Mas pelo menos a liberdade de ir e vir ainda é garantida pela Constituição. Certo? É verdade, enquanto os desembargadores e juízes puderem ir livremente aos guichês bancários para sacar seus haveres teremos a sensação de Estado de Direito. Mas e “se amanhã, seu Zé, se acabarem com seu Carnaval?”
Na verdade, o povo não detém as mesmas garantias e é sonegado na educação, nos hospitais, nos transportes, nas estradas e no saneamento, sendo tangido para as periferias e não podendo realmente sair dos guetos circunscritos. Só no Rio de Janeiro são mais de 900 favelas. Para eles, sem dúvida – insisto na imagem de Orwell – a liberdade é escravidão.
Para o coronel, no entanto, exibir com alegria pela TV e o rádio uma fingida ignorância, misturada a metáforas rigorosamente produzidas para seduzir os maltrapilhas que detêm a maioria dos votos – eis a fórmula final do exercício da força, pela legitimidade psicanalítica de convencimento das massas, que querem ver o estado d’alma refletido em seu dirigente. Se a ignorância conduz à popularidade, ignorância é força. É ardil e simulacro.
Nesse estado de tosca estabilidade falar em corrupção é a mesma coisa que discursar sobre corda em casa de enforcado. Um discurso vazio, quando as favas estão aparentemente contadas e o candidato sendo gestado.
Ideal para o coronel, que manda com mão-de-ferro e tem uma candidata sem mandato nas mãos. Ela mantém o sabor de vitória para ele, porque é uma geringonça toda construída pela cabeça do coronel, uma funcionária demissível ad nutum e que jamais disputou eleição, não tendo participado de qualquer “test-driver” eleitoral. É uma obediente vassala do chefe, que se exibe, demonstrando a todos que o que prevalece é a vontade de poder coronelista sobre tudo o mais. A ponto de gerar uma falsa líder em laboratório que, ao contrário das outras mulheres políticas, depende completamente do homem. Nem feminista é, porque não tem luz própria, é Lula própria...
O lado esquerdo do PT, mais ressabiado que o lado direito antes descrito, sente, sem dúvida, um cheiro muito ruim pelo ar. A coisa foi longe demais e não tem retorno – sentem os petistas quase puros, com a língua emudecida. Essa aventura neocoronelista, com o culto à personalidade dos regimes totalitários, chegou a um ponto tal que começa a exigir uma espécie de comlurb para nossos costumes políticos. Como diria Tomás de Aquino, um erro pequeno se tornou grande, afinal...
Para quem tem estômago, o Brasil pode ser aceito assim como está. Não tem mais jeito. O coronel manda mesmo e obedece quem tem juízo. Ao contrário das eleições municipais, ele aposta as fichas na sucessora, como um poste, somente para demonstrar poder e se tornar eminência parda fora dele. Tais cálculos são feitos com antecipação, porque todos percebem um jeito de governo que já acabou, cujo enredo foi posto na mesa e nem pode ser modificado.
De acordo com o que disse do alto de seus dois mandatos como governador, o senador Jarbas Vasconcellos chamou o governo Lula de “medíocre”, sustentado por um partido corrupto. Diria até que foi condescendente. O governo Lula possui outros adjetivos mais baixos e podres. E para a sua continuidade, como não poderia deixar de ser, o presidente convoca um personagem híbrido e de passado nebuloso: uma mulher, capaz de ser amada pelo povo, como o Grande Irmão de Orwell, desde que em nome do fabuloso coronel. “Nunca nezte paiz”...
_______
* Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e acha que a solução para o povo é brincar o Carnaval.
Teresópolis, 16 de fevereiro de 2009.
27 janeiro 2009
IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia - edição 2008
IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia - edição 2008
26 novembro 2008
YIN YANG



17 novembro 2008
"Un poquito" de São Paulo ... por Washington Olivetto


SÃO PAULO
por Washington Olivetto
Alguns dos meus queridos amigos cariocas têm mania de achar
São Paulo
parecida com Nova York.
Discordo deles.

Só acha São Paulo parecida com Nova York
quem não conhece bem a cidade.
Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que
São Paulo seja apenas uma imensa Rua Oscar Freire.
Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com
muitas cidades ao mesmo tempo e,
por isso mesmo, não se pare
cer com nenhuma.São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com
Paris no Largo do Arouche, Salvador na
Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do
Teatro Municipal, Munique em Santo Amaro,
Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a
pernambucana Olinda na Freguesia do Ó.

e tristezas, festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo,
como o Fasano, o Emiliano e o L'Hotel, mas também tem
gente dormindo embaixo das pontes.
Tem o deslumbrante
pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante vegetação da
Cantareira, mas também tem o ar mais poluído do país.
Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também
promove acidentes como o da cratera do metrô
e o do avião da TAM em Congonhas.
São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia
dúzia de paulistanos significa um italiano, um japonês,
um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.
São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: têmdiversos grandes times de futebol, sendo que um deles
leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido 'o mais querido'.
Mas, na verdade, o maior e o mais
querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica perto
da Portuguesa e foi fundado por italianos,
igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras.
São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas chegou a
2007 tendo como celebridade o permissivo
Oscar Maroni, do afamado Bahamas.


São Paulo já foi chamada de 'o túmulo do samba'
por Vinicius de Moraes, coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini
e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da
deselegância discreta de suas meninas, corretamente
constatada por Caetano Veloso, produziu chiques, como
Dener Pamplona Abreu e Gloria Kalil.

Em São Paulo se faz pizzas melhores que as de Nápoles,
sushis melhores que os de Tóquio, lagareiras melhores
que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris,
até porque em Paris não existem pastéis,
muito menos os de feira.

Em alguns momentos, São Paulo se acha o
máximo, em outros um horror.
Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.

São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins
cariocas, e agora são os cariocas que andam imitando
as suas imitações paulistanas.

São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade
brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e
pavorosa
manifestação de subarte urbana, e agora oRio faz o mesmo.

São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade,
mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa.
Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê
para valer, coisa que os ingleses já provaram ser
perfeitamente possível com o Tâmisa.

Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa,
purificando o ar, organizando o mobiliário urbano,
regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões
sonoras e melhorando o tráfego,

São Paulo jamais será uma cidade belíssima.
Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mamãe
natureza, é fruto do trabalho do homem.
Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que
a cidade oferece, no clima de excitação permanente,
na mescla de raças e classes sociais.
São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza,
fenômeno gerado pela miscigenação, melhor se
manifesta.

São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do
homem trabalharam direitinho, coisa que se reconhece
observando as meninas que circulam pelas ruas.
E se confirma analisando obras como o Pátio do Colégio
(local de fundação da cidade), a Estação da Luz
(onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa),
o Mosteiro de São Bento, a Oca, no Parque do Ibirapuera,
o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia,
o palacete Vila Penteado, o Masp, o Memorial da América
Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a
Pinacoteca e mais uma infinidade de
lugares desta cidade que não
pode parar, até porque tem mais carros
do que estacionamentos.

São Paulo não é geograficamente linda, não tem
mares azuis, areias brancas nem
montanhas recortadas.
Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e
nossos alpinistas, na maioria, são sociais.
Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o
quesito das belezas naturais, São Paulo se dá mundialmente
muito bem por uma razão tecnicamente comprovada.
Entre as maiores cidades do mundo, como
Tóquio, Nova York e Cidade do México, em matéria de
proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor.
Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro.
O mais importante é que com essa
distância nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo!
07 novembro 2008
O DISCURSO RACISTA NA TV

O DISCURSO RACISTA NA TV:
UMA ANÁLISE DA PROPAGANDA DA CERVEJA SOL
Lise Mary Arruda Dourado
Especialista em Metodologia do Ensino Superior
Professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Nós não queremos papéis de negros, queremos
papéis de brasileiros empregados, empresários, dentistas,
médicos, advogados. (ARAÚJO apud RAMOS, 2002)
1
Resumo: O presente artigo tem por objetivo investigar as condições de produção do
discurso veiculado por uma propaganda da cerveja Sol e de que modo busca
contribuir para a manutenção de uma concepção étnica que insiste em manter o
negro em uma posição marginal. Visto que a propaganda constitui importante
produto cultural, tanto pela regularidade com que é exibida nos intervalos entre
programações, quanto por mobilizar determinados universos de referência e, com
isso, impor modelos coletivos de representações e comportamento. O corpus do
trabalho constitui-se na propaganda da cerveja Sol, veiculada em rede nacional, no
verão de 2007. A análise, que busca desvelar a maneira como a memória discursiva
do sujeito-telespectador brasileiro é acionada à produção de sentidos, é realizada à
luz dos dispositivos da Análise do Discurso de Linha Francesa (PÊCHEUX, 1990;
ORLANDI, 2003) além de utilizar alguns verbetes de Charaudeau e Maingueneau
(2004). As reflexões acerca dessa análise contribuem para descortinar o véu
ideológico do branqueamento presente na propaganda em questão, cujo título é
Bronzeador.
Palavras-chave: Condições de produção; Discurso racista; Propaganda televisiva.
INTRODUÇÃO
O universo midiático exerce na pós-modernidade um papel fundamental
na circulação de sentidos, cujos valores simbólicos influenciam cultural e
socialmente na constituição dos sujeitos. Para esse fim, a televisão, considerada um
dos veículos de comunicação mais populares, lança mão de diversos mecanismos e
estratégias que envolvem aspectos verbais, visuais e sonoros. O poder, que lhe foi
delegado por tais aspectos, gerou uma ambivalência de opiniões a seu respeito:
[...] ora afirmam ser a televisão um instrumento de estímulo e
incentivo à produção da violência, que informa pouco e mal, ‘destrói
mais saber e mais entender do que transmite’, ‘está mudando a
natureza do ser humano’ (SARTORI, 2001, p. 8-9); que emburrece,
aliena, hipnotiza, vicia e transmite ao vivo imagens de guerra como
1
Joel Zito Araújo é Doutor em Comunicação, professor visitante da Universidade do Texas, cineasta e diretor.
Page 2
‘espetáculo excitante’ (KEHL, 1991, p. 60); que os produtos
disponibilizados pelas agências de notícias são vinculados, ‘quase
sempre, a interesses políticos e econômicos, divulgando, ignorando
ou distorcendo o que lhes interessa ou parece conveniente’
(FREIRE, 1999, p. 19). Ora apontam-na como dispositivo audiovisual
através do qual uma civilização pode exprimir a seus
contemporâneos os seus anseios e dúvidas, as suas crenças e
descrenças, as suas inquietações, as suas descobertas e os vôos de
imaginação (MACHADO, 2000, p. 11). (TASSO apud NAVARRO,
2006, p.131)
Entre as tipologias do gênero midiático televisivo, a propaganda constitui
importante produto cultural, tanto por nos emocionar, chocar, divertir ou atrair,
quanto pela regularidade com que é exibida nos intervalos entre programações, o
que aumenta o seu poder de persuasão. Há muito, a publicidade não se limita à
divulgação dos aspectos funcionais e dos benefícios do produto ou serviço
anunciado. Ao reconstituir cenas cotidianas da vida e mobilizar determinados
universos de referência, em detrimento de outros, a propaganda também propõe
modelos coletivos de comportamento - podendo cristalizar estereótipos – e, dessa
forma, assume uma poderosa influência cultural. Bem ou mal, um “papel social” é
cumprido, pois a propaganda espelha e serve de referência para a construção de
identidades:
[...] a televisão se inscreve numa seqüência temporal breve, que se
impõe à instância que olha, orientando-a em seu olhar sobre os
dramas do mundo. Assim, pode-se dizer que a televisão cumpre um
papel social e psíquico de reconhecimento de si através de um
mundo que se fez visível
2
(CHARAUDEAU, 2006. p. 112, 112).
Lançar-se-á um olhar étnico sobre a propaganda da cerveja Sol, a fim de
investigar se, na contribuição desta publicidade para a construção da identidade
negra, há indícios de um discurso racista. Para tanto, prioriza-se a discussão sobre
as condições de produção, lançando mão dos pressupostos teóricos da Análise do
Discurso de linha francesa. Para esta,
As condições de produção do discurso irão determinar não o sentido
em si, mas as posições ideológicas do jogo discursivo. Podemos
considerar as condições de produção em sentido estrito e temos as
circunstâncias da enunciação: é o contexto imediato. E se as
considerarmos em sentido amplo, as condições de produção incluem
o contexto sócio-histórico, ideológico. (ORLANDI, 2000, p. 46).
O recorte proposto para este trabalho pretende analisar até que ponto a
publicidade assume o papel de instrumento de dominação, visto que, segundo
Munanga (1996, p. 80) “[...] os preconceitos raciais são considerados como atitudes
2
Essa semiotização do real pela imagem, em que cada um se projeta no que aparece como um reflexo de seu
ambiente, é constitutiva do sujeito. (BELISLE apud CHARAUDEAU, 2006. p. 112).
Page 3
sociais propagadas pela classe dominante, visando à divisão dos membros da
classe dominada, para legitimar a exploração e garantir a dominação.”
É indispensável verificar, na associação dos elementos audiovisuais, a
presença do elemento ideológico, já que, para se constituir sujeito, o indivíduo é
interpelado pela história e pela ideologia (ORLANDI, 2003, p. 46). Essa interpelação
acontece quando o indivíduo sofre interferências da história no sentido de se
inscrever em um discurso já existente. E essa inscrição não é aleatória, pois há um
processo de identificação do sujeito com o discurso predominante. Desse modo,
cabem alguns questionamentos: a) Há manipulação do sujeito-telespectador a
desvalorizar a raça negra? b) Até que ponto a ideologia do embraquecimento pode
estar materializada no discurso dessa propaganda? A fim de responder a essas
questões, serão considerados princípios teóricos do funcionamento discursivo na
mídia televisiva, articulados aos conceitos de racismo e embraquecimento.
Considera-se racismo como a manifestação do preconceito e da
discriminação que permeiam as relações de raças em uma sociedade (MUNANGA,
1996, p. 76). O preconceito revela-se no dia-a-dia, nas situações mais simples, em
uma sociedade na qual as pessoas desenvolvem um mundo simbólico em que as
características fenotípicas acabam operando como referências para esse
preconceito. À proporção que a mídia enaltece as características fenotípicas de uma
raça em detrimento da outra, colabora para o enfraquecimento da segunda. Em
outras palavras, há uma introjeção da idéia da superioridade racial, o que colabora
para a sedimentação do embranquecimento, que vem a ser a negação da negritude
(FERREIRA, 2000, p. 70).
1 ANÁLISE DO TEXTO PUBLICITÁRIO
No tópico anterior, foram considerados princípios teóricos sobre o
funcionamento discursivo na mídia televisiva, articulando com os do discurso racista;
priorizou-se estabelecer relações existentes entre história
3
, memória
4
e condições de
produção na produção de sentidos relativos ao discurso racista. A seguir, por meio
dos dispositivos teóricos disponíveis, analisa-se a propaganda da cerveja Sol,
veiculada no verão de 2007 e intitulada Bronzeador. Pela análise a ser apresentada,
busca-se demonstrar quais mecanismos e estratégias foram utilizados nessa
materialidade midiática que possibilitaram a produção de determinados sentidos em
detrimento de outros. Pretende-se, em síntese, esboçar o que, o como e o porquê a
propaganda parece dizer o que diz. Inicia-se, então, a análise do texto publicitário,
apresentando o jingle
5
que acompanha a exibição do vídeo:
(P1): Tava no escritório com um baita de um calor...
(CM): Sol!
3
A produção de acontecimentos que significam. (ORLANDI, 2003, p. 31)
4
O saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está
na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. (ORLANDI, 2003, p.31)
5
Canção especialmente composta e criada para a propaganda de determinada marca. Forma de música
geralmente simples e cativante, fácil de cantarolar e recordar. (RABAÇA e BARBOSA, 1998, p. 134)
Page 4
(CM): Vamo aí, que’o verão já começou!
(P1): Mas verão sem mulherada, não é verão, é um terror!
(CM): Sol!
(CM): Vamo aí, que’o verão já começou!
(P1): Agora, o lance é achar o vendedor...
(P2): Ó a Sol, nem forte, nem fraca, no ponto!
(CM): Vamo aí, que o verão já começou!
(P3): Peraí! Quem vai passar o bronzeador?
(CM): Eeeeeeu!
(P4): E o verão tá bombando. Vamo aí?
(VM): Beba com moderação.
A enunciação é realizada por quatro personagens distintas (P1, P2, P3,
P4), um grupo de personagens masculinas que compõem um coro (CM: coro
masculino) e um enunciador masculino não identificado (VM: voz masculina). Para o
desenvolvimento da análise, subdividiu-se o vídeo, exibido em 30 segundos, em 3
partes, constituídas de 32 cenas: a primeira parte, formada pela seqüência de cenas
1 a 5, corresponde ao espaço de uma metrópole; a segunda, pela seqüência de 6 a
12, equivale ao espaço da estrada; a terceira, pela seqüência de cenas 13 a 32, ao
espaço da praia. Esse jingle apresenta-se em cadência acelerada, jovial. A fim de
considerar apenas o indispensável à discussão deste trabalho, a análise da
propaganda encerra-se na cena da terceira parte em que a personagem masculina
negra (P2) surge como enunciador, recebendo destaque no texto fílmico. De
maneira enxuta, tornou-se possível demonstrar como os principais elementos verbo-
visuais se articulam com os sonoros
6
, produzindo efeitos de sentido singulares na
propaganda, bem como a seqüência narrativa que dela faz parte. Note-se a
seqüência:
Na parte 1, um homem jovem (P1), aparentando ter faixa etária entre 18 a 25 anos
aproximadamente, de fenótipo branco, vestido com camisa de manga comprida branca e gravata
amarela, encontra-se em um ambiente de cor acinzentada. Além da ambientalização e do seu traje
indicarem que se trata de um local de trabalho, no jingle, P1 canta “Tava no escritório” e folga a
gravata. P1 sugere ao sujeito-telespectador que o ambiente está quente. Apesar do traje social, a
gravata amarela e o cabelo desalinhado de P1 são indícios da irreverência dessa personagem.
Na seqüência, P1, ainda folgando a gravata, aparece enquadrado pela câmera na janela
do escritório. Como a janela está aberta, o sujeito-telespectador pode deduzir que naquele ambiente
faz muito calor.
P1 confirma tal efeito de sentido, pois canta “... com um baita de um
calor!”. O vocábulo “baita” sugere fuga da variedade lingüística padrão, o que
contribui para a produção do sentido de informalidade de P1 e, por conseguinte, do
próprio produto. Assim, a cerveja Sol é um produto que deve ser consumindo
independente da circunstância ou do consumidor.
P1 destaca-se pelo contraste das cores branca e amarela com o seu
ambiente de trabalho de cores escuras e frias. Uma breve análise semiótica permite
perceber que estas cores simbolizam o líquido, sendo este personificado na figura
6
O conjunto de sons quer sejam eles verbais (falados ou cantados) ou não, ruídos ou oriundos de instrumentos
musicais.
Page 5
de P1, pela sua irreverência ao burlar as normas de um sistema. Enquanto o branco
representa a espuma da cerveja, o amarelo corresponde ao conteúdo.
Em seguida, a câmera aproxima-se da janela do escritório, focando o
trânsito e destacando quatro caminhões amarelos com a palavra “Sol”, escrita em
vermelho, nas laterais. Os caminhões circulam em diversos sentidos e direções,
embaixo e em cima de um viaduto. O recurso de enquadrar, em fração de segundos,
tantos caminhões em um espaço limitado pela janela, possibilita mostrar o intenso
consumo da cerveja, e, especificamente, daquela marca, naquele período e pode
representar um convite a P1 refrescar-se. Ouve-se um coro masculino (CM) falar
forte e rapidamente “Sol!”.
Ainda no escritório (enunciado por P1 na cena 1), há uma predominância
de figuras masculinas, de fenótipo branco. Todas as pessoas estão vestidas
formalmente, uma delas gira a cadeira e quase todas as outras jogam os papéis
para cima. O CM, no jingle, convida: “Vamo aí, que o verão já começou!”. A
predominância de personagens masculinas e o coro, igualmente másculo, compõe
uma conjugação dinâmica que produz o sentido de que o convite, em 1ª pessoa do
plural “Vamo” (variação lingüística, português não padrão), dirige-se não só aos seus
pares, supostamente homens, jovens, de fenótipo branco, que trabalham em
escritórios, independentes financeiramente, mas também a todos os que se
identificarem com a proposta da marca. Vale ressaltar que não aparece qualquer
personagem de fenótipo negro. A observação dessa ausência é fundamental para a
análise proposta por esse trabalho.
Na seqüência, surgem vários “homens de escritório”, abrindo bruscamente
portas largas de madeira e saindo velozmente, alguns escorregando pelo corrimão
que divide a larga escadaria. Devido a tais elementos e à seqüência da narrativa,
que mostrava o escritório no alto de um prédio, o sujeito-telespectador pode deduzir
que se trata da saída do prédio em que fica o escritório. O recurso da associação do
CM - que completa a frase da cena anterior, “...que o verão já começou!” – com a
saída brusca das personagens aciona a idéia de viver intensamente o dia, ou carpe
diem.
Na segunda parte, exibe-se o interior de um carro esportivo de luxo, onde
se encontram 4 homens. Tal elemento visual pode reforçar a idéia da independência
financeira masculina. Assim como o automóvel dirigido, um Eco Sport, P1 conota
integração com a natureza e também propõe o carpe diem. Ao lado de P1, está um
homem jovem de fenótipo branco, atrás de P1, mais outro de fenótipo branco e,
atrás do banco do carona, um de fenótipo negro. Mas a sombra da prancha de surf,
que está sobre o veículo, esconde a personagem negra, vista com dificuldade pelo
telespectador. Essa personagem parece não ter nenhuma função, buscando ocupar
um espaço que efetivamente permanece vazio, numa clara tentativa de apenas
cumprir a lei 3198/00
7
que determina um percentual de 20% de negros em
programas televisivos.
7
Projeto de lei do Deputado Federal Paulo Paim (PT-RS).
Page 6
A câmera, que se encontra no interior do carro, aproxima-se e, quando dá
um close na face direita do motorista P1, focaliza, ao fundo, um ônibus que buzina.
Podem-se ver pessoas acenando dentro do ônibus azul. P1 continua a cantar,
completando a frase iniciada na cena anterior: “... não é verão, é um terror!”. O
conjunto dos elementos áudio-visuais que compõem o quadro cênico aciona a
memória do sujeito-telespectador, que deduz o desenrolar da narrativa, ou seja, o
sujeito antecipa que há mulheres no ônibus.
Na seqüência, lê-se apenas “olley Fe” na lateral do ônibus. Entre as duas
“palavras”, há o desenho de uma estrela. Dentro desse ônibus, há várias mulheres,
de fenótipo branco, amontoando-se nas janelas, olhando para a direção da câmera.
Como a câmera, na cena anterior, estava no interior do carro esportivo, é possível,
ao sujeito-telespectador, atribuir o sentido de que as mulheres estão olhando para
os homens do carro, ou, pelo menos, para os dois, de fenótipo branco, que estão na
lateral próxima ao ônibus. Ouve-se o CM: “Sol!”. A associação dos elementos áudio-
visuais pode levar o sujeito-telespectador a produzir o sentido da satisfação
masculina diante de tantas mulheres acenando. E como, na cena anterior, a buzina
partiu do ônibus onde estão as mulheres, sugere-se o sentido da lascívia feminina.
Em seguida, P1 e o passageiro que está na lateral direita do veículo, com
as janelas abertas, olham para o ônibus. O CM canta: “Vamo aí...”. Agora,
relacionando o jingle aos elementos visuais, o sujeito-telespectador pode atribuir ao
vocábulo “vamo” o sentido de anúncio de visita às mulheres, já que o vocábulo “aí”
parece referir-se a essas mulheres.
Surgem duas mulheres loiras: uma, que aparece no lado esquerdo do
vídeo, olha em direção à câmera e acena com um gesto de chamamento, abrindo e
fechando as mãos; a outra, do lado direito, segura uma lata de cerveja Sol. Ambas
estão vestidas em traje de banho, mais especificamente de biquíni. Diante dos
elementos visuais que compõem a cena, o sujeito-telespectador deduz o convite
feminino ao prazer carnal e, cristalizando o sentido de lascívia feminina. O CM
continua: “... que o verão...”.
Logo em seguida, a câmera se distancia e pode-se ler “Volley feminino” na
lateral do ônibus. E o CM conclui: “... já começou!”. Fecha-se também o círculo da
representação: finalmente, o sujeito-telespectador atribui sentido ao fragmento de
texto “olley Fe” da cena 8. A presença de estrangeirismo no vocábulo “volley” e a
grafia, em português, do vocábulo “feminino” são elementos da linguagem verbal
que, associados, podem dar sentido à nacionalidade das mulheres e ao status que
elas querem demonstrar. O sujeito telespectador pode atribuir o sentido de que são
brasileiras - pela grafia da segunda palavra – e que tentam demonstrar sofisticação
pelo uso da primeira palavra, escrita em inglês, língua falada pelo Primeiro Mundo.
Na terceira parte, ao fundo da cena, vê-se o ônibus estacionado ao lado
do carro esportivo. A praia aparece na parte inferior do vídeo. P1 abraça duas
mulheres loiras. Há outra personagem masculina também abraçada a uma mulher
loira. Ouve-se P1: “Agora, o lance...”.
Aparecem sombreiros amarelos da cerveja Sol, areia, mar, pessoas de
fenótipo branco. P1 continua: “...é achar o...”. A associação dos elementos áudio-
Page 7
visuais que constituem o quadro cênico cria condições do sujeito-telespectador
produzir o sentido de expectativa pela procura de algo (ou alguém) indefinido.
Em seguida, a câmera dá um close no rosto de P1, que aparece entre o
rosto de duas mulheres loiras. Então P1 completa o a frase: “... o vendedor.”. Após
esse instante da cena, a música para de tocar. A procura pelo vendedor e a
ausência de som produzem o suspense, a expectativa como efeito de sentido. Em
seguida, e ainda sem música, a câmara destaca um homem de fenótipo negro,
caminhando na areia, por entre os sombreiros amarelos, carregando uma caixa de
isopor pendurada ao pescoço, levantando uma lata de cerveja e anunciando em tom
pausado, quase cantado: “Ó a Sol! Nem forte, nem fraca, no ponto!”. Considerando
o contexto imediato da propaganda, a associação dos elementos áudio-visuais
permite que o espectador entenda que se trata do vendedor. O tom dado à cena
produz efeito de espetáculo, pois prende e seduz o sujeito-telespectador, ao lhe
mostrar o mundo exterior:
Não é possível fazer uma oposição abstrata entre o espetáculo e a
atividade social efetiva: esse desdobramento também é desdobrado.
[...] A realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real. Essa
alienação recíproca é a essência e a base da sociedade existente.
(DEBORD apud GREGOLIN, 2003, p. 9)
A propaganda simula a realidade quando mostra a personagem,
representação do vendedor ambulante de cervejas, carregada de características
próprias dos reais vendedores, constituintes do objeto representado. A produção de
sentidos pode não se encerrar por aí, uma vez que, a depender do interdiscurso do
sujeito-telespectador e, considerando o contexto histórico da construção da
identidade afro-descendente, podem ser produzidos, pelo menos, dois sentidos
diferentes: a cristalização da imagem do negro como serviçal, subempregado,
marginalizado; ou a indignação por perceber a tentativa de manutenção da idéia de
inferiorização racial do negro sugerida pela propaganda.
Imerso numa sociedade que tem no preconceito racial um dos pilares de
sua construção sócio-histórica, o negro precisa lutar cotidianamente para tentar
desconstruir as imagens criadas em torno da sua etnicidade:
[...] a identidade da pessoa negra traz do passado a negação da
tradição africana, a condição de escravo e o estigma de ser objeto de
uso como instrumento de trabalho. [...] A cor da pele e as
características fenotípicas acabam operando como referências que
associam de forma inseparável raça e condição social, o que leva o
negro à introjeção de um julgamento de inferioridade [...] (SOUZA
apud FERREIRA, 2000, p. 41-42)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Page 8
O negro, tanto no contexto imediato (o vídeo publicitário da cerveja Sol),
quanto no histórico-factual, difundido durante aproximadamente 400 anos pelos
europeus e seus descendentes, permanece subjugado a um discurso de
superioridade racial branca. Esta é munida de variadas formas de negação da
negritude, utilizando o espaço midiático como meio de propagar uma ideologia
baseada em pressupostos racistas.
A análise da propaganda demonstra como a mídia aproveita-se do poder
de seduzir os telespectadores, visto emocioná-los através da associação de
elementos sonoros e imagéticos, para reforçar o discurso racial já cristalizado sobre
os negros. A associação das falas e das imagens na produção do discurso
publicitário converge para o estabelecimento de uma suposta verdade, colocada
como inquestionável. Em O Bronzeador, a figura do negro é evidenciada através da
manutenção de estereótipos que lhe atribuem características, tais como: negro
servil, sofredor, incapaz de ocupar determinadas posições e papéis sociais, etc.b
Podemos verificar, na edição da peça publicitária em questão, que sequer
a cota mínima obrigatória prevista em lei federal foi preenchida, evidenciando que
não é apenas através da coersão que se conseguirá mudar o panorama nacional
previamente destinado à população negra, mas também investindo-se em
programas que busquem sensibilizar a sociedade de modo a despertar para a
necessidade da não reprodução do discurso ideológico vigente, buscando a
desconstrução de estereótipos que insistem criar, disseminar e perpetuar a idéia da
inferioridade negra.
É preciso quebrar o espelho que distorce a imagem que o negro tem de si
próprio, a fim de, igualmente, quebrar o processo cíclico onde a vida imita a arte que
imita a vida.
Page 9
REFERÊNCIAS
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise do Discurso. Tradução
Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004.
_______. Discurso das mídias. Tradução Ângela S. M. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006.
COTAS. Lei 3198/00. Disponível em: www.mundonegro.com.br. Acesso em: 07 jul. 2007.
FERREIRA, Ricardo F. Afro-descendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de
Janeiro: Pallas, 2000.
GREGOLIN, M. do R. (Org.). Discurso e mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira
Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
MUNANGA, Kabengele (Org.). Estratégias e políticas de combate à discriminação racial. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo: Estação Ciência, 1996.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5. ed. Campinas, SP: Pontes, 2003.
____________. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 4. ed. Campinas, SP:
Pontes, 2003.
RABAÇA, C. A, e BARBOSA, G. Dicionário de comunicação. 3. ed. São Paulo: Ática, 1998.
RAMOS, Sílvia (Org.). Mídia e racismo. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.
SILVERSTONE, R. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.
