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16 dezembro 2009
15 dezembro 2009
RACISMO E PSICANÁLISE
NO BRASIL
Tradução:Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO
Poucos escritores franceses do Século XIX contribuiram
tanto para as teorias do racismo como o Conde Joseph Arthur
de Gobineau (1816 - 1882).A obra que tornou-o lastimosamente
célebre teve como titulo : « Ensaio sobre a desigualdade
das raças humanas » (1). Este livro teve um grande sucesso
junto aos adeptos do nazismo que fizeram do mesmo uma de
suas referências fundamentais. Quais foram as teorias do
conde de Gobineau ? Leiamos para resumir as notas sobre o
ele contidas na edição do Larousse Universel de 1922, eù
seguida Nouveau Larousse Universel de 1948, o pequeno
Larousse de 1980 e enfim Le Petit Larousse Compact de 1999.A
evolução dos termos com os quais o célebre dicionário
resumiu as teorias de Gobineau conheceu ao longo do Século
XX uma evolução subtil. Não pdemos negligenciar tais
variações porque elas são sugnificativas das mudanças
das mentalidades no que diz respeito às complacências mais
ou menos evidentes para com as
teses racistas na França.
Vejamos o que escreveu o Larousse em 1922 a propósito do
Ensaio sobre as desigualdades das raças humanas. « Fundado
na idéia da raça como fator fundamental da história, ele
apresenta o ariano dolicocéfalo louro como o tipo da
humanidade superior. Com esta maneira de ver, Gobineau
favoreceu o orgulho pangermânico, seu sistema sendo,
especialmente, muito apreciado na Alemanha. Ele exerceu uma
grande influência sobre as idéias de Wagner ». A edição
do Nouveau Larousse Universel de 1948 salienta ainda a
grande influência de Gobineau sobre Wagner, concluindo : «
Os alemães interpretaram o sistema dele para tirarem
benefício».
Quase 40 ans depois, o pequeno Larousse passou em silêncio
as influências que recebeu Wagner e concluiu no final que o
Conde de Gobineau «influenciou os teóricos do racismo
germânico ».
Em 1999, contudo, o mesmo Petit Larousse mostrou-se desta
vez mais sutil a propósito do autor e de suas teorias,
escrevendo que o Ensaio sobre as desigualdades das raças
humanas « pretendia retraçar e explicar pelo processo
histórico da miscigenação, a marcha da humanidade para um
declínio inelutável ».Assim, a questão das teorias de
Gobineau sobre as « raças superiores »deixou de ser
mencionada. Outra nuança introduzida pelo Petit Larousse de
1999 em sua conclusão concernando o referido autor
consistiu em dizer que os « teóricos do racismo germânico
reivindicam as teorias do Conde mas « disfarçam as suas
teses ».
Dir-se-ia que o Petit Larousse procurasse atenuar o racismo
inerente às teorias de Gobineau, deixando supor que os
nazistas só utilizaram-nas de maneira disfarçada. Para o o
leitor que tivesse ainda necessidade de se convencer de que
as idéias de Gobineau fossem tão racistas, suas Cartas
brasileiras (2) constituem uma amostra mais do que
convincente.
Joseph Arthur de Gobineau, que era não somente escritor
mas também diplomata, ocupou o cargo de chefe de gabinete
de Alexis de Tocqueville, então Ministro das relações
exteriores da França de Napoleão III (3).Após haver
deixado este cargo afim de ocupar a função de primeiro
secretário de embaixadas em Berna, Hanovre e no Irão,
Gobineau foi enviado para o Brasil em 1869, por uma dessas
astúcias muito frequentes na história. Ele partiu a
contragosto, afim de representar a França perante um dos
povos mais mestiços do planeta.Conhecendo-se o papel
desempenhado pela mestiçagem em suas teorias, consideradas
como fator histórico tendo precipitado a humanidade num
declínio inelutável, este encontro do teórico racista com
o povo de mestiços é muito engraçado. A estadia no Brasil
foi para Gobineau uma grande provação, se considerarmos
seu estado de saúde do início até o fim de sua missão no
Rio. Esta, que durou pouco mais de um ano,
permitiu-lhe escrever numerosas cartas a sua esposa que
ficara na França. Nelas o Conde verteu sem nenhuma censura,
tudo de ruim que ele pensava da «ignominiosa canalha
brasileira. Todos mulatos, todos, todos, menos a família
imperial ! » exclamou numa de suas cartas (4).
Tendo chegado ao Brasil no fin de março de 1869, três
meses depois Gobineau já tinha um julgamento definitivo
sobre o seu povo: «O Brasil só pode tornar-se alguma coisa
se os brasileiros desaparecerem ; trata-se de uma
população inepta, viciada até a moela, pela qual não se
pode fazer nada, que se utilize a força física ou moral »
(5).
Gobineau, por que o povo brasileiro não era conforme à
idéia que ele tinha das raças superiores, procurou
refúgio ao lado do Imperador do Brasil, sua Majestade Dom
Pedro II e de sua Alteza a Imperatriz. E o escritor francês
teve muita sorte porque o Imperador era um homem realmente
excepcional! Ávido de tudo, espírito muito culto e
científico, homem de laboratório, admirador de Linné, Dom
Pedro manteve uma correspondência com Quatrefages durante
vinte anos. O Imperador brasileiro fez parte até dos
benfeitores do Instituto Pasteur de Paris.Ele era também um
grande poliglota, conhecia quatorze línguas e falava oito
ou nove de maneira fluente. Em suma, era um Monarca
esclarecido, o que deveria agradar o Conde, era um branco de
sangue azul, descendente das linhagens mais altas da
aristocracia européia. Porém muito cedo e apesar da
benevolente amizade do imperador por Gobineau (ele o recebia
duas, três vezes por semana no palácio) a saúde
do conde declinou muito depressa : « Você sabia que,
desde minha chegada, tenho sofrido, de maneira contínua, de
febre e de um abatimento insuportável ? Não se passa uma
semana sem que eu me sinta obrigado a deitar-me duas ou tres
vezes durante o dia, »escreveu a um amigo na Europa.Sua
degradação física e moral atingiu um tal ponto que o
próprio Imperador inquietou-se e aconselhou-o a voltar para
a França o mais cedo possivel. E Gobineau findou sendo
repatriado quase em situação de urgência.
Como pudeste imaginar que eu sofresse de nostalgia ou de
algo semelhante ?» perguntou o Conde a sua esposa. « Estou
realmente doente e o Rio vai me matar. Tenho outro coisa a
fazer do que deixar-me assim morrer » (6).
Devemos reconhecer que Gobineau sofreu no Rio de uma
doença semelhante, e muito frequente, que atingia os negros
brasileiros vindos da Africa para trabalhar como escravos.
Ao chegarem ao Brasil, numerosos negros reagiram às
condições desumanas da escravidão com uma melancolia
mortal denominada « banzo ».Este fenômeno alcançou
proporções epidêmicas tais e marcou tanto o espírito dos
brasileiros que a palavra « banzo », de origem africana
,faz parte doravante da língua comum para designar a
melancolia.
Naturalmente, poderiamos dizer que, por razões muito
diferentes, tanto o Conde como os negros africanos padeceram
de melancolia no Brasil, não pelas mesmas razões mas pela
mesma relação com a verdade do sujeito.
O próprio Freud colocou em « Luto e Melancolia » (7) a
questão : porque adoecer para alcançar uma… verdade ?
Que verdade teriam eles alcançado, o Conde e os escravos
africanos, para mergulharem numa melancolia, apenas chegados
ao Brasil ? Sem dúvida as causas não foram as mesmas, mas,
não poderíamos dizer que eles encontraram no Brasil a
verdade do ser-para-a- morte ? Os escravos, assim reduzidos
ao estatuto de simples objets do gozo do Outro, tornaram-se
mortos como sujeitos. Para o Conde, uma revelação poderia
ter-lhe ocorrido: O Brasil prefigurava o mundo futuro onde
não mais existiria um lugar para o Outro da raça pura, a
raça dos Mestres « arianos dolicocéfalos louros».Este
ideal do ego era feroz para os outros mas também para o
próprio Conde. A prova, a mestiçagem brasileira,
verdadeiro exemplo contrário ao sistema social que Gobineau
queria, agia já de maneira sorrateira ao desaparecimento da
ordem injusta de base racial
com a qual ele sonhava.
Gobineau deve ter percebido isto, a sua melancolia tendo
sido o resultado.Aqueles que acreditaram nesse delírio e
quiseram aplicá-lo mais tarde na Europa do Século XX, não
somente se enganaram mas arruinaram os seus países, seus
povos e semearam en toda parte onde passaram o genocídio, a
destruição e a miséria. A miscigenação universal- toda
a evolução do Século XX nos prova- conduz para um mundo
onde o Outro não existe, salvo sob as aparências do único
Mestre Absoluto, a Morte.
1) J. A. de Gobineau, Ensaio sobre as desigualdades das
raças humanas, 1853 - 1855, re-edição, Paris 1967.
2) J. A. de Gobineau,Cartas brasileiras, Éditions du
Delta, Paris, 1969.
3) Ver a propósito das relações de Gobineau com
Tocqueville, os comentários feitos por Jacques-Alain
Miller. Este salienta a ambiguidade de Alexis de Tocqueville
com relação a Arthur de Gobineau : ao mesmo tempo em que o
primeiro considerava o sistema da Desigualdade das raças
como «a tese mais injusta que se pudesse conceber nos dias
atuais » … um « sistema de manobras fraudulosas, uma
filosofia de diretor de haras », Alexis mostrava-se além
de complacente com o Conde Joseph Artur, correndo servir às
ambições de Gobineau no Ministério e na Academia.
Conforme : « Astros obscuros, hidras estreladas »
Enc: Confrontos em Copenhague
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30 novembro 2009
Folha de S.Paulo - Análise Os filhos do Brasil - 27-11-2009

Folha de S.Paulo - Análise: Os filhos do Brasil - 27/11/2009 Caros amigos: Acho que importa ler o depoimento abaixo. Além do que acrescenta à documentação relativa aos porões da ditadura, é muito revelador do caráter e da biografia não autorizada do presidente Luís Inácio da Silva.
[Photo][Photo]
São Paulo, sexta-feira, 27 de novembro de 2009 [Photo] [Photo]
ANÁLISE
Os filhos do Brasil Divulgação
[Photo] Cena do filme "Lula, o Filho do Brasil", do diretor Fábio Barreto, que narra a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
CÉSAR BENJAMIN
ESPECIAL PARA A FOLHA
Um dia a equipe de plantão abriu a porta de bom humor. Conduziram-me por dois corredores e colocaram-me em uma cela maior onde estavam três criminosos comuns, Caveirinha, Português e Nelson, incentivados ali mesmo a me usar como bem entendessem. Os três, porém, foram gentis e solidários comigo. Ofereceram-me logo um lençol, com o qual me cobri, passando a usá-lo nos dias seguintes como uma toga troncha de senador romano.
Oriundos de São Paulo, Caveirinha e Português disseram-me que "estavam pedidos" pelo delegado Sérgio Fleury, que provavelmente iria matá-los. Nelson, um mulato escuro, passava o tempo cantando Beatles, fingindo que sabia inglês e pedindo nossa opinião sobre suas caprichadas interpretações. Repetia uma ideia, pensando alto: "O Brasil não dá mais. Aqui só tem gente esperta. Quando sair dessa, vou para o Senegal. Vou ser rei do Senegal".
Voltei para a solitária alguns dias depois. Ainda não sabia que começava então um longo período que me levou ao limite.
Vegetei em silêncio, sem contato humano, vendo só quatro paredes -"sobrevivendo a mim mesmo como um fósforo frio", para lembrar Fernando Pessoa- durante três anos e meio, em diferentes quartéis, sem saber o que acontecia fora das celas. Até que, num fim de tarde, abriram a porta e colocaram-me em um camburão. Eu estava sendo transferido para fora da Vila Militar. A caçamba do carro era dividida ao meio por uma chapa de ferro, de modo que duas pessoas podiam ser conduzidas sem que conseguissem se ver. A vedação, porém, não era completa. Por uma fresta de alguns centímetros, no canto inferior à minha direita, apareceram dedos que, pelo tato, percebi serem femininos.
Fiquei muito perturbado (preso vive de coisas pequenas). Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher. Fui desembarcado em um dos presídios do complexo penitenciário de Bangu, para presos comuns, e colocado na galeria F, "de alta periculosia", como se dizia por lá. Havia 30 a 40 homens, sem superlotação, e três eram travestis, a Monique, a Neguinha e a Eva. Revivi o pesadelo de sofrer uma curra, mas, mais uma vez, nada ocorreu. Era Carnaval, e a direção do presídio, excepcionalmente, permitira a entrada de uma televisão para que os detentos pudessem assistir ao desfile.
Estavam todos ocupados, torcendo por suas escolas. Pude então, nessa noite, ter uma longa conversa com as lideranças do novo lugar: Sapo Lee, Sabichão, Neguinho Dois, Formigão, Ari dos Macacos (ou Ari Navalhada, por causa de uma imensa cicatriz que trazia no rosto) e Chinês. Quando o dia amanheceu éramos quase amigos, o que não impediu que, durante algum tempo, eu fosse submetido à tradicional série de "provas de fogo", situações armadas para testar a firmeza de cada novato.
Quando fui rebatizado, estava aceito. Passei a ser o Devagar. Aos poucos, aprendi a "língua de congo", o dialeto que os presos usam entre si para não serem entendidos pelos estranhos ao grupo.
Com a entrada de um novo diretor, mais liberal, consegui reativar as salas de aula do presídio para turmas de primeiro e de segundo grau. Além de dezenas de presos, de todas as galerias, guardas penitenciários e até o chefe de segurança se inscreveram para tentar um diploma do supletivo. Era o que eu faria, também: clandestino desde os 14 anos, preso desde os 17, já estava com 22 e não tinha o segundo grau. Tornei-me o professor de todas as matérias, mas faria as provas junto com eles.
Passei assim a maior parte dos quase dois anos que fiquei em Bangu. Nos intervalos das aulas, traduzia livros para mim mesmo, para aprender línguas, e escrevia petições para advogados dos presos ou cartas de amor que eles enviavam para namoradas reais, supostas ou apenas desejadas, algumas das quais presas no Talavera Bruce, ali ao lado. Quanto mais melosas, melhor.
Como não havia sido levado a julgamento, por causa da menoridade na época da prisão, não cumpria nenhuma pena específica. Por isso era mantido nesse confinamento semiclandestino, segregado dos demais presos políticos. Ignorava quanto tempo ainda permaneceria nessa situação.
Lembro-me com emoção -toda essa trajetória me emociona, a ponto de eu nunca tê-la compartilhado- do dia em que circulou a notícia de que eu seria transferido. Recebi dezenas de catataus, de todas as galerias, trazidos pelos próprios guardas. Catatau, em língua de congo, é uma espécie de bilhete de apresentação em que o signatário afiança a seus conhecidos que o portador é "sujeito-homem" e deve ser ajudado nos outros presídios por onde passar.
Alguns presos propuseram-se a organizar uma rebelião, temendo que a transferência fosse parte de um plano contra a minha vida. A essa altura, já haviam compreendido há muito quem eu era e o que era uma ditadura.
Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora. [Photo][Photo]
São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.
Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.
Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço.
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta".
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do "menino", que frustrara a investida com cotoveladas e socos.
Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.
O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu. [Photo][Photo]
Dias depois de ter retornado para a solitária, ainda na PE da Vila Militar, alguém empurrou por baixo da porta um exemplar do jornal "O Dia". A matéria da primeira página, com direito a manchete principal, anunciava que Caveirinha e Português haviam sido localizados no bairro do Rio Comprido por uma equipe do delegado Fleury e mortos depois de intensa perseguição e tiroteio. Consumara-se o assassinato que eles haviam antevisto.
Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do Senegal: transferido para o presídio de Água Santa, liderou uma greve de fome contra os espancamentos de presos e perseverou nela até morrer de inanição, cerca de 60 dias depois. Seu pai, guarda penitenciário, servia naquela unidade.
Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: "Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!" Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada.
A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o "menino do MEP". Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.
O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.
Mesmo assim, não pretendo assistir a "O Filho do Brasil", que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.
CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.
28 novembro 2009
12 novembro 2009
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25 setembro 2009
Guilherme Arantes
O Show de Guilherme Arantes ontem no Teatro do Parque em Recife foi carregado de emoção e de algumas críticas feitas pelo músico. O show foi dividido em 2 apresentações, e aqui vale uma dica: se tiver de ir a alguma apresentação em que o artista tenha que fazer duas, uma seguida da outra, deixe para ir na última. Por vários motivos: 1º o som já vai estar melhor testado e qualquer eventual problema que ocorra, como retorno, equalização, entre outras coisas, serão sanados ou na hora ou para a próxima apresentação; 2º o artista vai estar mais a vontade, mais relaxado, e isso pode fazer com que melhore a sua performance; 3º o show seguinte tem hora pra começar, então o artista tem hora pra acabar, logo, o tradicional bis e a interação com o público ficam prejudicados. Foi o que aconteceu ontem, quem deixou pra ir na segunda apresentação viu um show completamente diferente. Guilherme estava mais a vontade, os problemas técnicos que o tirou do sério na primeira apresentação, deixaram de existir e com isso pode desfilar seus hits com toda desenvoltura e segurança, deixando algumas pausas para um bate-papo com o público. Aproveitou para fazer uma crítica ao cenário atual da música brasileira, em especial a bahiana. Atualmente o músico reside na Bahia, montou uma gravadora e pretende lançar nomes no mercado na intenção promover pessoas que possam elevar a qualidade musical de nosso país como fez no passado Aloysio de Oliveira com a gravadora Elenco, nos áureos tempos da bossa-nova. Confira abaixo uma de suas péloras. |
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05 setembro 2009
Enc: Para salvar o planeta, livrem-se do capitalismo (livro de Hervé Kempf)
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Enc: Pai é preso por beijar filha na boca, mas bater pode
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19 agosto 2009
O DUELO GLOBO-RECORD
O DUELO GLOBO-RECORD,
A OUTRA FACE
"A discussão é a forma polida do instinto batalhador
que jaz no homem, como herança bestial; os querubins
e serafins não controvertem nada, porque são a
perfeição espiritual e eterna."
Machado de Assis, O Espelho
A virulência dos argumentos, surgidos de repente e repetidos em
suíte pela rede de televisão mais importante em matéria de audiência, no
país, demonstraria um anseio bissexto e muito pouco usual na emissora de
retorno à moralidade – num momento em que o panorama reflete os conflitos em
torno da ética, que hoje, inclusive, ameaçam por descrédito a própria
sobrevivência dos três poderes nacionais.
Sendo assim, muito já se escreveu sobre o tema, tentando se
descobrir as verdadeiras motivações que estão por trás de tantas iniciativas
de cunho "moralizador": ora se diz que seria uma guerra estratégica,
provocada pelo temor da Rede Globo em perder a liderança de audiência,
principalmente aos domingos; ora que seria tentativa, meio canhestra e
requentada, de ressuscitar argumentos contra o dirigente máximo da Igreja e
seu grupo mais íntimo de colaboradores.
Edir Macedo seria diretamente acusado de mercantilista e
traficante de simonias e dízimos isentos de impostos, que seriam depois
transferidos, num processo de lavagem de dinheiro e segundo a Rede Globo,
através de empresas de fachada, para a inquietante expansão da atual Rede
Record de televisão.
Também alguns outros atentos analistas afirmaram que tal campanha,
de natureza extemporânea, poderia servir a uma decisão secreta entre a Rede
Globo e o governo para desviar a atenção do povo sobre a podridão terrível
que emana dos subterrâneos do Congresso.
Seja qual for a interpretação do enredo dessa estória – que pode
conter, sem dúvida alguma, todos esses condimentos – o embate parece
contentar a todos. À Rede Globo, cujo planejamento estratégico interno já
detetou que, do jeito que a coisa vai, no mercado de emissoras de TV em
pleno regime democrático, a Rede Record irá alcançar a coirmã em menos de
cinco anos. Tal fato seria terrível para uma emissora que, engordada e
cevada durante o regime de ditadura militar, parece não conviver bem com
outras televisões organizadas em regime de livre concorrência.
Por seu turno, a luta beneficia indiretamente à própria Rede
Record, porque essa movimentação seria a prova cabal de que estaria
incomodando muito a líder, Rede Globo. Esta contou, desde há muito tempo,
com verdadeiras estratégias imperiais num mercado francamente monopolista,
em que seria a estação mais eficiente na defesa do regime dos militares,
enquanto a Rede Record, através do proprietário oculto da Igreja Universal
do Reino de Deus, representaria a ascensão de um instrumento tecnológico,
informacional e midiático de um novo império de fervor religioso, baseado na
famosa teoria ou teologia da prosperidade.
Tal teologia seria o reconhecimento tácito do supremo poder do
capitalismo em terras brasileiras. "Creia em Deus e no Senhor Jesus e
prosperarás, comprando imóveis, carros novos, pagando as dívidas,
livrando-se de aluguéis, restaurando a família, livrando-se de incômodos
vícios e expandindo negócios". Embora esses princípios não estejam escritos
na Bíblia, em lugar nenhum, qualquer argumento que possa convencer os fiéis
de que Jesus está operando no sentido de prodigalizar fortunas é acolhido
pelo Bispo e suas empresas semissecretas. Daí a razão de seu sucesso, capaz
de atrair multidões de adeptos e expandir-lhe o empreendimento "religioso"
por mais de 80 países! Só é esquecido o Sermão da Montanha, onde Cristo diz
textualmente: "não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mt., 6:24).
Por sua vez, a Rede Globo autointitula-se, hipocritamente, uma
instituição laica, quando todos sabem que sempre preferiu incentivar o
catolicismo entre os brasileiros, promovendo os seus eventos e liturgia. A
Igreja Católica, porém, ciosa do papel político e com certa circunspecção,
não vem se metendo no duelo entre as televisões, mas bem que gostaria que a
Igreja Universal não angariasse tantos adeptos, através dos métodos
agressivos de comércio da fé, nem crescesse tanto, como efetivamente anda
crescendo...
Diz-se, também, que o poder Judiciário já julgou as pendências ora
denunciadas e pretensa e novamente investigadas pelo Ministério Público.
Afirma-se, ainda, que as denúncias já foram repelidas pelo Supremo Tribunal
Federal e o povo assiste a tudo, impassível, porque não quer e nem pode
interferir nessa verdadeira "briga de cachorros grandes".
E quão grandes são os dois grupos, representados na ponta visível
do iceberg e simbolizados pelas duas redes de televisão? Aliás, o Brasil
repete as estratégias de guerra de monopólio e oligopólio que já existiram
no início do século passado e resultaram num grande bem para o povo
norte-americano: a criação da lei antitruste, que passou a impedir que uma
só empresa ou pequeno grupo de empresas tentasse se utilizar do próprio
poder para dominar setores estratégicos da economia, nos Estados Unidos. E
estamos falando de petróleo, minérios, gás, carvão, água, transportes, lixo
e saneamento.
A luta antitruste, empreendida nos Estados Unidos no início do
século XX, conflito típico de sociedades de segunda onda, não informatizadas
se repete no Brasil, como disse Karl Marx, em forma de farsa, no século XXI
quando aparentemente teríamos leis e instituições antitruste em pleno
funcionamento, mas que nada representam, diante da majestade do poder de
conglomerados industriais e bancários que funcionam em nosso país. Sabemos
muito bem que o brasileiro não tem força alguma, como cidadão, contra o
enorme poder dessas empresas, que têm força incomensurável e representantes
e lobistas no governo e no Congresso.
Assim, a pretensa briga Globo-Record, além de "não dar em nada"
como quase tudo em nosso país, serve como mais uma cortina de fumaça contra
a corrupção dentro dos poderes e põe em segundo plano completo a CPI da
Petrobrás, completamente escondida do telespectador comum. Este prefere
muito mais saber se o Faustão continuará por mais 20 anos a falar as
besteiras e obscenidades de sempre durante os domingos, sendo campeão de
audiência da Rede Globo e um superinfluente formador de opinião pública e da
"inteligência" nacional, Ou se, ao converso, Gugu Liberato, pela Rede Record
com aquela carinha suave de bom moço rico, irá desbancar a atmosfera de
monopólio aos domingos, beneficiando com muitos dividendos e lucros a
televisão do Bispo Macedo.
Interessa mais ao público saber se a programação bonitinha e
robotizada da Rede Globo, à qual os brasileiros se acostumaram sem contestar
será ultrapassada pela concepção artística da Rede Record, muito mais
criativa e humanista, capaz por isso mesmo de convencer as classes menos
favorecidas e exigentes a assistir a um novo modelo de TV, que vem surgindo
no horizonte de um país em que praticamente não acontece nada de novo.
Escapar do monopólio da Rede Globo que sempre nos massacrou, desde
os tempos da ditadura militar, seria, pois, iniciativa muito bem-vinda,
talvez até heróica. No entanto, poderíamos ficar à mercê da raça ilustre dos
telepastores, que também compram horários caros e ocupam espaços em outras
redes e emissoras. Essa classe, muito exigente e sofisticada de pedintes,
conseguiria, habitualmente, extrair dízimos e ofertas dos crentes e fiéis
que, se somados todos, acabariam por empobrecer e levar à falência a
população como um todo, ilaquiando os incautos e engordando os bolsos cheios
dos que se autodenominam mensageiros da fé!
Pouco importa de fato para o cidadão comum a luta entre tais
"cachorros grandes", porque ele sabe, no fundo, que não existem no Brasil
autoridades policiais, procuradores ou juízes capazes de contrabalançar o
poder dessas grandes empresas. Elas possuem capacidade quase inesgotável de
convencimento pela corrupção, poder de levantar, baixar e instalar recursos
e na contratação de grandes, caros e competentes escritórios de advocacia.
Aliás, o pagamento de honorários de advogados caros e ricos é a única
distribuição de renda permitida pelos milionários brasileiros. Estes, além
de garantir que os processos sejam remetidos para a eternidade (o que não
deixa de ser um "milagre" quase religioso) permitirão que logo esse duelo
entre televisões seja substituído por outros escândalos, mais sensacionais e
recentes.
E só restaria ao cidadão comum, esquecido e oprimido, como sempre
oferecer a outra face.
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* Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e já está cansado de
apanhar nas duas faces, como qualquer brasileiro.
Teresópolis, 17 de agosto de 2009.
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18 junho 2009
Nonsense
Injeção de silicone leva dois a hospital em Recife
Plantão | Publicada em 17/06/2009 às 16h46m
Letícia Lins, O GloboRECIFE - Uma mulher de 32 anos e um adolescente de 17 permanecem internados no Hospital da Restauração, em Recife, depois de terem injetado silicone líquido e óleo mineral nos corpos para tornear os braços. Eles estão sem previsão de alta, depois de terem passado por cirurgias de emergência para reduzir a compressão do sistema vascular. Ambos poderiam ter os membros amputados, mas a equipe médica do HR - a maior emergência de Recife - conseguiu evitar essa solução mais drástica. Agora os dois, que pretendiam ter supermúsculos, terão que se contentar com tecido muscular de menos. Os cirurgiões tiraram parte da massa muscular, alegando que estava em processo de necrose. A mulher disse que a prática que ela usou é comum entre os colegas de profissão e alunos. Ela é personal trainer e trabalha eventualmente em festas noturnas como segurança. Segundo o médico Jaime Amorim, do HR, os dois poderiam ter morrido.
27 maio 2009
O culto a estética

Herbert Vianna (Cantor e Compositor)
20 maio 2009
18 maio 2009
O DRAMA DA PETROBRÁS
Waldo Luís Viana*
Pouca gente sabe, mas já fui empregado da Petrobrás. Não terceirizado, mas por concurso. E pedi demissão, dez meses depois, sendo entrevistado por quatro psicólogas que, naturalmente, me olhavam atônitas. Saí, porque queria completar o curso de Economia na Gama Filho, chegava em casa à meia-noite, atravessando toda a cidade, do bairro de Piedade ao Leme, jantava, dormia de madrugada e acordava às seis e trinta da manhã para estar às oito no Edifício-sede.
Em minha época, 1976, não havia auxílio-refeição, vale-transporte, nem nada. Era só o salário-seco, mais auxílio-periculosidade (para subir e descer de elevador) e cartão de ponto. Ah, como detesto cartão de ponto, mas agradeço a Deus, porque foi o pavor dele que me fez poeta: “sou um homem que vive nos interlúdios concedidos pelo relógio de ponto...” – dizia, nos versos trôpegos da mocidade...
Queria ser escritor – imagina?, no Brasil de Paulo Coelho e José Sarney – e as psicólogas me perguntavam, sofridas, o motivo de eu querer ir embora. Sem muita paciência – já tinha pavio curto naquela época – redargui: “quero ver o sol nascer...”. Elas não entenderam nada, tadinhas, mas eu chegava em casa tarde, saía cedo e não via o sol subir no horizonte. Coisa de poeta.
Fui colocado no serviço de pessoal e era tão bom datilógrafo que me puseram para compulsar documentos sigilosos sobre a empresa. Impressionou-me a quantidade de internações psiquiátricas entre os petroleiros, mas isso não podia comentar com ninguém. Internavam-me em sala sem janela e fui dos únicos datilógrafos a utilizar máquinas elétricas com pedais, já extintas, para confeccionar tabelas de relatórios “top-secret” para a diretoria. Minha curiosidade era imensa e, como era muito rápido, lia tudo e anotava os detalhes escabrosos num bloquinho. Tudo isso eu já destruí, mas de memória, na época, o maior número de internamentos eram os do serviço de contabilidade. Fora a incidência de alcoolismo que era muito grande. Segredo maior do que o da Igreja Católica em relação aos padres...
Há trinta e dois anos, com Shigeaki Ueki na presidência, vivíamos as consequências do choque do petróleo, que fizeram o japonezinho desligar a sua piscina de água quente para poupar energia. Como fazia parte da “peãozada”, fingia-me de morto e não tocava em política, assunto proibido. A Petrobrás já era, então, orgulho nacional e não havia pai de família que não estufasse o peito de orgulho, quando afirmava que o filho trabalhava na empresa.
Quando pedi demissão descontentei meus pais. Resolvera seguir o destino pedregoso e íngreme da não burocracia. Para mim, era insuportável ver aqueles técnicos de administração, de gravatinha, batendo em meu ombro e dizendo a frase-modelo: “meu filho, quando eu me aposentar...”
A empresa articulava uma tecnologia mental no empregado, como se não funcionasse sozinha, dada a sua grandiosidade. Muitos trabalhavam com febre, com medo de ir ao serviço médico e serem mal vistos pelos chefetes de seção.
Naquela época, a empresa gastava 11% de seu orçamento com despesas de pessoal e, atualmente, reduziu esse “gasto” entregando algumas atividades-meio a terceirizados, aliás muito mal vistos pelos concursados, que detêm crachá autêntico. Não sei como está hoje, mas o cartão de ponto é exigido até para profissionais de curso superior, os horários são rígidos e a mega-empresa continua um quartel. De fazer inveja aos atuais militares que nem rancho têm para oferecer aos recrutas.
Os privilégios dos petroleiros existem, mas as benesses e salários-extras continuam em poder de uma elite muito bem estabelecida, estruturada e corporativa. São ciosos de seus privilégios e têm cabeça de funcionários públicos, ou seja, sabem que se mantiverem a cabecinha conservadora, não contestatória, se lamberem muito bem as botas dos chefes, permanecerão até a aposentadoria, quando como verdadeiros trapos humanos vão requerê-las, com complemento financeiro da fundação PETROS.
Essa empresa hoje é imensa, tentacular, um estado dentro do estado, e a União, apesar de todos os esforços do governo tucano para privatizá-la, no que foi impedido pelo Alto Comando do Exército, ainda detém 51% do capital das ações com direito a voto. Com a troca de governo, tornou-se a joia da coroa do PT e é administrada diretamente pelo Palácio do Planalto e pela Casa Civil, passando por cima, na prática, da natural hierarquia do Ministério das Minas e Energia.
Quem manda na Petrobrás é Lula e Lula desmanda na Petrobrás. Era para ser o paraíso petista, mas nunca o foi. Os petistas invadiram a empresa, de alto a baixo, como a KGB fazia na União Soviética com o controle dos bairros em Moscou. Nenhum cargo de confiança ficou incólume. O comissariado manda e desmanda mesmo. Todo mundo baixa a cabeça, naquela técnica de sabujice de quem quer sobreviver, esperando novos tempos. Precisaríamos de um Machado de Assis ou de um Lima Barreto para descrever o que acontece na mente dos chefes de seção e dos engenheiros de staff. Principalmente aqueles que assistem à farra das concessões orçamentárias a diversas ONGs desconhecidas...
Os controles e auditorias internos são draconianos, principalmente no varejo. Os gastos no atacado, em dólares e euros, sob responsabilidade das diretorias e do Conselho de Administração fogem à imaginação dos mortais da planície ou a qualquer vasculhador que não seja do meio. Para quem não conhece economia de petróleo, as tacadas são indetetáveis!
Como uma empresa de petróleo, mesmo mal administrada, é um supernegócio, bastaria uma vista d’olhos nas firmas fornecedoras da Petrobrás, muitas delas criadas por ex-funcionários, e os escritórios de advocacia, para os contenciosos surgidos com os que negociam diretamente com ela, para assuntar diversas surpresas. Isso seria matéria para os serviços de inteligência da Polícia Federal, da ABIN, do CADE e de outras agências, além da curiosidade atenta do que os petistas chamam de mídia golpista. Isso sem falar no Ministério Público, que tem tantos procuradores jovens e loucos para defender os altos interesses da sociedade. Aqui vai a todos eles um terno pedido do poeta: por favor, deem um passo à frente...
Agora vemos essa CPI montada no Senado, com cara e enredo de chantagem. Com a grana e os interesses em torno da empresa, é muito fácil que a Comissão não dê em nada, embora se o esterco for remexido, não venha a sobrar pedra sobre pedra. A Petrobrás é um dos sustentáculos da Pátria, assim como Jerusalém era a capital dos judeus e do cristianismo. Mesmo assim, a cidade um dia foi destruída e mudou a história do mundo.
Não admira que o drama da Petrobrás, orgulho nacional seja tão grande. Tão grande quanto uma plataforma! Aliás, tudo é gigantesco naquela empresa que tantos serviços têm prestado a ela mesma e a sua burocracia. Inclusive batendo às portas da corrupção. O povo brasileiro, seu pretenso proprietário, espera por explicações...
É claro que em 180 dias os senadores não irão apurar coisa alguma. Eles só querem desviar o foco dos escândalos sobre o Congresso e culpam o governo Lula por não os haver defendido, tal como o fez nos tempos dos hierarcas do mensalão.
Mesquinharia se paga com mesquinharia. Assim, nada como mexer com a joia da coroa e fazer a opinião pública esquecer logo das mordomias do Senado e outras futilidades, não defendidas a contento pelo governo atual. E com seis meses decorridos vem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e mais um ano de eleições. E Suas Excelências estarão salvas para disputar novo pleito, quem sabe com financiamento dos próprios lobistas e empresários que sobrevivem dos nababescos negócios ligados ao petróleo brasileiro.
Vamos assistir de camarote a mais uma pantomima teatral. Não é comédia. É o drama da Petrobrás, a grande empresa, orgulho nacional, de qual um dia, num acesso de capa e espada, me demiti...
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*Waldo Luís Viana é escritor, poeta, economista e ex-empregado concursado da PETROBRAS. Aliás, de primeiro emprego a gente nunca esquece...
Teresópolis, 16 de maio de 2009.


